sexta-feira, novembro 17, 2006
O DIABO VESTIA SEDA 1 Acordava lá pelas dez horas, de péssimo humor, me arrastava até a cozinha e engolia um café frio da garrafa térmica que de térmica não tinha nada, acendia o primeiro cigarro do dia, quase nunca lia o jornal deixado debaixo da porta, ligar a TV de manhã nem pensar. Um bench para supino e barra com anilhas piscavam para mim, eu piscava de volta, quando não conseguia mais levantar cem quilos, ficou de enfeite para me lembrar de que já fui um cara e tanto. Eu não rezava nem meditava, não ao nada, jogava o cigarro no cinzeiro transbordado de guimbas, rotina de um sujeito que nada tinha a fazer. O telefone continuava dormindo, dormia dias seguidos, ninguém me telefonava, não me aporrinhavam mais com ameaças anônimas: “não se meta onde não é chamado se não...”. Fazia um século que ninguém mais precisava procurar pela filha drogada, pela mulher infiel, por jóias roubadas, por documentos extraviadas, ninguém, nem mesmo mulheres, nem podiam, estavam bem enterradas no meu passado, o bicho telefone quando acordava era só pra ouvir ”desculpe,engano”, deixei de o atender. Esparramado na poltrona ouvia Bill Evans no MP3. sempre o piano dele pela manhã. Na estante abarrotada de livros, Ruben Fonseca, Raymond Chandler, Dashiell Hammett e outros do gênero no lugar de honra, os primeiros da fila, Camus, Hemingwway, Malraux, Updike, Bukovski e os Beat em seguida, Philip Roth, Paul Auster e outros mais na fila, dezenas e dezenas, todos empoeirados, os de Direito eu jogara no lixo junto com meu diploma faz mais de cinco anos. Centenas de CD´s de jazz numa prateleira encostados no DVD toca tudo, o computador com monitor de 17” sempre vigilante, longe da janela. Com o dia amanhecendo lindo eu sentia vontade adormecida de ir até à praia, mergulhar no mar, limpar o corpo e acender a alma, mas a vontade permanecia comigo na poltrona. Não necessitava mais dar duro, dinheiro no banco suficiente para quem não precisava dele. “Dinheiro não trás felicidade”, só rindo, a mim me trazia saudade dos tempos que eu corria atrás dele,“prefiro ser um rico infeliz ao invés de um pobre feliz”, dizia Bernrad Shaw, irlandês safado que gozava da minha cara. O zoar do telefone me assustou, diabos, logo agora ouvindo Waltz for Debbie. Não atendi, ele teimou, o xinguei, não atendi, insistiu, puta merda! levantei – me. – diga! – Monteverde? Voz de mulher. – se é televenda vá pra... – ...preciso de você! Ia bater o telefone, com certeza uma esposa atrás da grana do marido, montar flagra e escassas verdinhas pra mim, não navegava mais nessas águas, mas não desliguei, devia ter desligado. – ainda está na linha? Parecia mais um comando que uma pergunta. – preciso me encontrar com você. – só atendo mulher na minha casa. – que droga! é negócio. – só faço negócio com prostitutas, você é? – puta que te pariu, é coisa séria. – serio só fazendo sexo. – que saco! – onde? – no 1800, às quatro da tarde. Desligou. Não fui, odeio gente mandona e mulher desbocada, ela que se danasse, não atenderia ao telefone de novo, mas o jeitão dela falar me deixou curioso, só um pouco, nada empolgante. No relógio cinco e quinze da tarde, ouvi a campainha da porta, me levantei resmungando, pelo olho mágico um rosto deformado, colado na porta, – não quer ser identificado –, peguei do armário a Glock, o passado nunca nos abandona, a campainha insistente me enfureceu, abri raivoso, ela entrou sem tomar conhecimento da minha presença, acho até que me empurrou, me olhou como quem precisava memorizar minha cara, como se mais tarde fosse pintar meu rosto de modo deformado e detalhado. Sentou na poltrona sem pedir licença. – guarde a arma! – falou. – e saia da poltrona, ninguém senta nela a não ser eu! - é sempre grosseiro? – só quando preciso. – vocês homens são todos iguais, quando precisam da gente não hesitam. – e todas as mulheres são iguais depois da primeira foda. Usava um casaquinho apertado na cintura, seios sobravam do decote, saia justa, cabelos puxados para trás, óculos escuros, se levantou sem protestar, sentou no sofá, cruzou suas pernas esguias, tirou os óculos. – começamos mal, vamos reiniciar? – falou ela esboçando um sorriso artificial. Acendi um cigarro. – certo! – precisa fumar? Continuei fumando. .– não oferece nada, nem mesmo um café? Não me movi, ela não se perturbou. – não simpatiza comigo, não é? Levantei - me e fui ao bar. – gelo? – sim! Entreguei o copo com uísque, sentei com o meu na poltrona. – nome? – Mônica Alves! – senhora? – viúva! Alves de solteira. – de casada? – Nogueira! – Mônica Nogueira? – sim! Locomotiva da sociedade, viúva do magno empreiteiro Nonato Nogueira, rica pra cacete. – e por que é a mim que procura? – discrição! não quero alarde. – isso é papo furado, não explica nada. – foi o que me informaram. Cansado do bate - pronto, bebi em silêncio, acendi outro cigarro e esperei, ela colocou o copo na mesinha. – preciso encontrar alguém. – quem? – meu pai. – há quantos dias está sumido? – desde 1972. – como? – ouviu bem, 1972. – deve estar morto. – pode estar, mas preciso saber. – e quantos anos ele teria agora? – oitenta e um. – profissão? – professor universitário, de literatura. – sabe o motivo do sumiço? – guerrilha do Araguaia! Loucura, quem ainda ligava praquilo, os cabelos do antebraço eriçaram, sinal de perigo. – do que lado estava? – dos bons! – e quem eram os bons? Levantou - se irada. – me disseram que era um bom filho da puta e apaga a merda desse cigarro! Amassei o dito no cinzeiro. – senta e se acalme. Mônica sentou, cruzou as pernas. – e para de olhar, estou de calcinha. Fingi não ter ouvido, não desviei o olhar. – bom, pelo que consta, os guerrilheiros que não morreram estão por aqui metidos na política. Não têm outros. – oficialmente! meu pai escapou. – como pode ter tanta certeza? – instinto de filha! – apenas? – não, há cinco anos atrás recebi um envelope pelo SEDEX, nele uma carta me informando que meu pai estava vivo. – e por que só agora resolveu investigar? – meu marido vivo, não queria envolvê-lo. – começou mal, é mentira, era mais velho que você e te vigiava, ciúme, te apertou e teve que falar, te proibiu de levar o assunto adiante, não convinha. Esforçou – se em reter as lágrimas, de crocodilo, puro fingimento. Esperei, ela tirou da ampla bolsa um envelope, me entregou, o coloquei no chão ao lado da poltrona. – não vai abrir? – não agora, outro uísque? A servi de novo, ela descruzou as pernas, as deitou sobre o sofá, recostou a cabeça numa almofada, fechou os olhos, o corpo relaxou, adormeceu. 2 Fui me lembrando dos anos de 1970, ainda na faculdade de direito eu não me metia em movimentos políticos, apenas estudo e esporte, total indiferença com a política, não tinha entusiasmos nem arroubos desmedidos, torcia pelo Botafogo, mas não ia ao paroxismo, gostava de mulher e evitava paixão, comícios, marchas não eram comigo, debates acalorados uma chatura, jazz e cinema meu passatempo, talvez fosse o instinto de preservação, sabia que se abraçasse uma causa acabava me ferrando, meu exterior tranqüilo enganava, ia até as ultimas conseqüências quando algum fogo interior me possuía, herdara do meu pai esse meu modo de ser. Formado em direito em 1972 eu corria atrás de emprego, não queria saber de mais nada enquanto não estivesse sentado num escritório de advocacia e bem remunerado, nem mesmo de mulher me interessava, eu vivia por etapas, sistemático e concentrado, aquilo sempre me deixou seqüelas, poucas vezes relaxava, mesmo sem metas a perseguir. Ela acordou, parecia perdida, me viu e sorriu. – desculpe! – um café? – por favor. Acionei a maquina italiana, cinco minutos depois entreguei a xícara, sentei. – pode fumar seu cigarro. Acendi um. – o nome do seu pai? – Moacir Alves. – apelido, nome de guerra? – Cacate! – ainda mora na Vieira Souto? – é na Delfim Moreira. Deu o endereço completo, o numero do telefone residencial e do celular. Parecia não querer se despedir, no relógio oito horas da noite. – quer jantar? peço por telefone. – sim, obrigada. – algo especial? – nada pesado, por favor. – bebida? – suco de laranja. Liguei pro Felice, salada verde com salmão, suco de tomate pra mim, de laranja pra ela, sorvete de chocolate. – tem filhos, irmãos, a mãe ainda vive? – não, ninguém. Contou que nascera numa família de classe media, em Copacabana, o pai viajava com alguma freqüência fazendo palestras em capitais, graciosamente visitava escolas rurais, dizia ele que era para despertar a curiosidade das crianças sobre o conhecimento, conhecia bem o interior, num das viagens voltara com ar cansado, dois dias depois do retorno, era o ano de 1970, recebera um telefonema, refez as malas, se despediu da família e partiu, não foi mais visto, enviava telegramas dizendo que estava bem, assinava Cacate, tudo isso relatado pela mãe dela, Mônica ainda muito criança para se lembrar. – aceita a tarefa? – não! – como não? por que me fez perder tempo e fez tantas perguntas? Não queria mesmo, cruzada de uma filha atrás de um fantasma, minha vida era tranqüila, não queria mais emoções desnecessárias, não precisava de dinheiro. Felice entregou o pedido, pratos, talheres. Comemos em silêncio, café no final, deixei a mesa desarrumada, ela voltou pro sofá, eu pra poltrona, sempre um cigarro entre os lábios. – chamo um táxi? – não obrigada, meu carro está estacionado na praça. Mas não se levantou, liguei a TV, ouvimos o noticiário, desliguei o aparelho, coloquei o DVD do concerto no Carnegie Hall, homenagem a Clint Eastwood. – gosta de jazz? – não muito. Retirei o DVD coloquei um de filme, A NOITE de Antonioni. – gosta de cinema? – pouco! Retirei o DVD, coloquei o CD Passaro de Fogo de Stravinski. – gosta disso? – muito estridente. Desliguei o som. – gosta de que? – perguntei bastante curioso, – de sexo! surpreso? – não! todos os animais o praticam. Mônica sorriu, doce sorriso. – quando a fêmea está no cio. Não fui adiante com o assunto, previa besteiras sem fim, mulher sem gosto pela musica e pela sétima arte não merecia nenhum aprofundamento sobre qualquer tipo de assunto, mesmo um banal como o sexo. Levantei - me e fingi procurar algo na estante, estava impaciente, queria me livrar dela, voltei á poltrona olhei o relógio. – é tarde acho que... – você me lembra do meu primeiro namorado, o primeiro homem que me possuiu, não fisicamente, é sua maneira de andar, de falar, de se movimentar, igual a ele, faz mais de vinte anos, estou aqui e me lembro do passado, tudo igual, uma sala, um sofá, uma poltrona e um homem. Suas palavras, chavão dos mais banais, só babacas caiam nessa. Cortei a futilidade com fingida erudição. – um objeto qualquer, um som, uma palavra trouxeram á sua mente imagens do passado, algo que a emocionou, talvez seu primeiro amor, não necessariamente semelhante a mim, é o não distanciamento, presente e passado superpostos os tempos se confundem...um homem sentado á mesa, lendo o jornal, o som do rádio, uma musica especial para ele, sua filha de quatro anos brinca perto, de repente ela pula na cadeira, da cadeira em cima da mesa, ele joga o jornal no chão, se levanta e preocupado vigia a menina, tem medo dela cair, se machucar, a musica que ouve o leva ao passado, ele estacionando o carro, ele e sua namorada vindo de um passeio, ela liga o radio, é aquela musica, ela sai do carro começa a dançar e sem nenhum aviso sobe no capô do motor, continua a dança, ele a cerca, tem medo dela cair, se machucar, os tempos se confundem – interessante, gosto de você, – ela olhou a estante com livros, – tem cultura, por que abraçou o lado negro da vida? Tentativa óbvia de arrancar confidências, minha impaciência não diminui. – é melhor ir, está ficando tarde, – falei. Olhou para o teto, para as paredes, para o chão, devagar, deliberada, sem pressa. – quero passar a noite aqui. – melhor não! Mônica se levantou entrou no meu quarto pela porta aberta, deitou vestida na cama, não protestei, fechei a porta e voltei à sala. Com Bill Evans no piano, acendi meu milionésimo cigarro, peguei no envelope, o abri, retirei uma folha de papel xerocada de carta manuscrita, Marabá, 15 de março de 1996. Dona Mônica, a senhora não me conhece, mas eu sei da senhora. È filha de alguém que conheci em 1972 em situação pouco agradável. Com certeza pelo ano mencionado a senhora sabe que se trata do seu pai. A senhora com certeza sabe do que falo visto que seu pai participava de um grupo dito subversivo que foi aniquilado por aqui, nas redondezas de onde lhe escrevo. Consta que setenta foram mortos, seu pai e mais trinta, todos presos num curral, eu montava guarda com outros dois, e eles cantavam sem parar, De pé, ó vitimas da fome! De pé, famélicos da terra! Da idéia a chama já consome A crosta bruta que a soterra Cortai o mal bem pelo fundo! De pé, de pé, não mais senhores! Se nada somos neste mundo, Sejamos tudo, oh produtores! De tanto ouvir eles cantar decorei, diziam que é hino político, não entendia bem do que se tratava, mas ele não parava, nem na hora do rango, só calava quando caia exausto à noite, bom , mas isso é só para a senhora saber que falo a verdade.Quando a turma foi levada para uma clareira e enfileirada em camadas de seis ele deu um jeito e ficou na ultima fila, muito esperto, assim não seria um dos primeiros a tombar e quando aconteceu a fuzilaria e uns caíram sobre os outros ele e mais um conseguiu escapar e se embrenhou no mato. Feita a contagem... Parei de ler, carta fabricada, no fim da pagina uma assinatura, Altamir Pessoa. E se fosse verdade? sempre havia uma possibilidade longínqua, circunstâncias adversas, elo entre dois homens guardada na memória de um, talvez também no do outro, Altamir existiu? existe? se eu acreditasse, a tarefa me levaria para Marabá, detestava viajar, me enfurnar pelo interior, desconforto, poeira, chuva, ambiente desconhecido. Será que ao ela fabricar a carta não pensou que perguntas seriam feitas? por que o pai nunca reapareceu depois do indulto? estaria vivo? e se tivesse outra família? o Brasil é imenso, a busca seria cansativa, desgastante, deixar Ipanema pela Amazônia não me apetecia, coloquei a carta de volta no envelope, me ajeitei na poltrona e sorri, me lembrei de um filme espanhol sobre a guerra civil, quase todos os filmes espanhóis são sobra àquela carnificina, excetuando os de Almodóvar, um cara escapa do fuzilamento, finda a luta, o cara reaparece são e salvo, uma professora de história quer se aprofundar, quer encontrar o soldado fascista que salvou a vida do fugitivo, o encontra num asilo na França. Mônica teria assistido ao filme? De uma coisa eu tinha certeza, o pai de fato estava desaparecido, meu instinto nunca falhava. Adormeci. 3 ...– estou nua,vem ver! Não me movo, estou lendo o Caderno B do JB, a coluna de Luiz Orlando Carneiro sobre jazz. – quer me ver nua? – ela insiste de trás da porta do banheiro. Entro, ela deixa a toalha cair. – o que acha? por que não diz nada? já sei, viu melhores, não é seu filho da puta? . – é perfeita para uma dona de quase.... – ...me chama de velha? – não,estou dizendo que... – ...não sirvo pra você? está se achando um garotão? não passa de um intelectual metido a besta! Ela se encolhe num canto do box, chora, volto pra sala, mulher chora e eu viro manteiga, retorno ao banheiro, a levanto, penso satisfazer ela na cama, permaneço parado, impossível, ela percebe, corre pro quarto, se veste, sai batendo a porto, eu permaneço de pé, não saio do lugar... Sonhos perturbavam minhas noites, mesmo no cochilo diurno ou quando minha mente devaneia de olhos bem abertos, quase sempre mulher o personagem principal,sempre sexo, sexo pelo sexo, sem amor, sexo e amor acaba em confusão. Desespero me levara ao consultório de psicanalista, me fora indicado um em Botafogo. Hora marcada, compareci e fui atendido. Acomodei - me num sofá, uma deusa morena com olhar cintilante numa poltrona à minha frente. – que faço? - perguntei. – você é quem sabe! – e ficou me encarando com seus belos olhos negros e eu encarando de volta tentando imaginar ela despida, adivinhei diminutos seios escondidos debaixo de suéter que a engolia, mulher esperta. Percebi que não havia solução para meu problema. Continuaria sonhando ad perpetuum. Relatei uns três sonhos. – parece ter problemas com mulheres. – nenhum problema, até pelo contrario, concordo com Camus que disse que as mulheres são que o que sabemos sobre o paraíso, aqui na terra. – só isso? falou muito em prostitutas, as descrimina? – nem pensar. – saiba que elas tentam recuperar a pureza. – besteira, ninguém é puro. – o quê procura na mulher? - não sei definir, talvez um sorriso diferente, um andar sem artifício, pouca bijuteria, nada de sofisticação, sinceridade, não ligo pra beleza como definida pela sociedade, pode ser magra ou gorda, alta ou baixa, de qualquer cor. A doutora parecia estar satisfeita, mais nada sobre mulheres, a conversa convergiu para assuntos como cinema e musica, os sonhos esquecidos. Findou a consulta, quarenta e cinco minutos exatos, receitou remédio anti – stress, paguei, nunca mais voltei, nem tomei remédios, continuei a sonhar. 4 Sacudiram meu ombro, abri os olhos, Mônica ao meu lado. E eu com gosto de guarda chuva na boca, corpo dolorido. – dormiu bem? – sim, obrigada, cama confortável, e você? – igual a alguém numa cama de hospital. – tadinho. – eu sonhei que estava ao lado de um homem, não devia ter mais de cinqüenta anos, pálido e com voz pastosa me falava: “primeiro minha mãe morreu, seis meses depois meu pai também, oito meses a seguir minha irmã morreu, um ano mais tarde meu casamento foi pro brejo e minha mulher me deixou liso, e foi quando imaginei alguém me falar: – vamos amputar seu braço direito, agüenta?–, mais tarde voltaram e falaram: – agora vai ser teu braço esquerdo -, e quando terminaram, voltaram alguns dias mais tarde: – agora chega ou quer mais? ou vamos ter que cortar uma das suas pernas? –, e eu durante esse tempo todo estava pensando, quando vão acabar com isso tudo? quando vou colocar minha cabeça no forno e ligar o gás? quando o bastante é o bastante? e foi assim que vivi com minha tristeza durante dez anos e agora a tristeza se foi e essa nova merda vai começar”. Eu inventara tudo, meus sonhos não falam em desespero, eu tinha um proposto, me livrar dela. – puxa, que coisa mais estranha. – nem tanto, foi um aviso, não se meta num assunto que vai te machucar. – que assunto? – não se faça de desentendida. – que dizer que não vai assumir o quê te pedi? – exato! Esperei, parecia que ela não tinha nada para dizer, eu também não tinha nada para dizer. Levantou-se, pegou a bolsa e saiu sem se despedir. Joguei-me na poltrona, acendi um cigarro, não estava satisfeito, uma bela mulher zangada e eu embora não querendo mais me envolver em histórias tipo “capa e espada” estava insatisfeito. Quando garoto eu engolia histórias em quadrinho, vivia o herói, o mocinho, comprava fascículos de aventuras no jornaleiro, adulto o fascínio pelo heroísmo não me abandonou, sujeitos como Malraux, intelectual, guerreiro, maqui francês, Jabotinsky poeta e soldado de Israel, Lawrence da Arábia, arqueólogo formado com louvor por Oxford, soldado e escritor, meus ídolos, Sam Spade e Philip Marlowe. personagens de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, minha inspiração. Passados dez dias e ainda com minúsculo sentimento de culpa eu olhava o telefone, mas o quê era que eu queria? ouvir a voz dela implorando ou eu querendo ligar para ela pedindo escusas pela minha insensibilidade? eu não precisava de dinheiro, estava guarnecido até mesmo se vivesse cem anos, então por que razão não me esquecia dela? o quê ela queria de fato? por que eu? por que razão quase impusera dormir na minha cama sem tentar me seduzir? 5 ...minha avó, linda, tranqüila, sorridente e de poucas palavras, sua bolsa e um livro sempre perto dela, cigarro nos lábios, casada com meu avô por conveniência como era o hábito naquela época, se eles se amavam não sei, mas sei que havia carinho e amizade, ás vezes a percebia com olhar perdido e eu perguntava: “vò no que pensa?” “no passado, querido, um passado feio do qual fugimos, mas eu tenho saudades das rosas, das cerejeiras, das papoulas, dos campos de trigo, dos camponeses alegres, dos violinos ciganos, da primavera, até do inverno frio e gelado, dos cristais, das porcelanas, da minha infância” , “mas avô diz que era ruim viver lá” , “sim, sim, as pessoas às vezes eram muito más, mas a terra é muito bonita, as montanhas nevadas e as florestas um encanto, também sinto muita falta de cultura, dos ensinamentos na universidade” , “você fez?” , ”não terminei, casei, naquele tempo você tinha que escolher, carreira ou casamento, namoro, namorar, eu acho que nem existiam essas palavras, quando mocinha andar no bosque ou na beira do rio com um rapaz desconhecido ou não parente, impossível, e se por um motivo casual ou impensado desse a mão a ele e se vista era logo taxada de impudente, o casamento significava tranqüilidade material, filhos nascem, a mulher é condenada, amava meus filhos, mas aquilo não me bastava, hoje é tão diferente, mas algumas coisas nunca mudam, a felicidade ao contrário, a felicidade escura continua, é a que as pessoas sentem ao fazer mal uma às outras, parece que se sentem muito bem agindo assim, parece que não ficam apenas satisfeitos pelo que eles têm, mas também pelo que eles têm e que os outros não têm, toda tragédia é um pouco de comédia, em toda desgraça há um pouco de satisfação, para os que assistem, e agora criança vou descansar um pouco”, fecha os olhos e encosta a cabeça no espaldar do sofá, permaneço olhando para ela por instantes, bela e triste... Sonhos nem sempre são sobre sexo. 6 Sol em Ipanema, o calçadão um desbunde de bundas e eu com passada marcial, expirando nicotina, suando uísque, caminhava na direção do Leblon, parei num quiosque em frente ao César Park, pedi um coco natural, negra jovem me atendeu. – é bonita, já te disseram? Seu rosto iluminou, a pele escura brilhou, parecia emanar dela minúsculas, milhares de estrelas. – sim! – fica sempre por aqui? – sim! – passo amanhã pra te ver de novo. Ela baixou o olhar. Terminei o coco, paguei o dobro, me afastei, olhei para trás, ela continuava sorrindo, o desbunde ipanemense desbundou pra valer. O corpo dela, escondido pelo avental o imaginava magro, não desnutrido, uma fausse maigre, falsa magra, seios pêra daqueles que mergulham e retornam viçosos, mamilo apontado pro céu sem limite, as pernas com tornozelos de gazela, os pés sem forma definida, sandálias de dedo deformam o que Deus criou, dentes alvos dentadura? não importava, o sorriso era que interessava, imaginei transa com aquela princesa tropical, branco e preto, Botafogo, que beleza. Nada acontecerá, eu era preguiçoso, não voltarei mais ao quiosque, a esquecerei, quinhentos metros adiante não me lembrava mais dela, nem da imaginada transa. Passei pelo canal, maré alta, garotos espertos mergulhavam nele, pescadores com tarrafas se fartavam de peixes, em frente a Almirante Guilhem atravessei, andei uns dez metros, vesti a camiseta, entrei no edifício. – Senhora Mônica Nogueira!. – de bermuda e chinelo só pelo elevador de serviço. Fingi não ouvir. – diga que é o doutor Monteverde. A palavra doutor ainda era milagrosa por aqui O porteiro acionou o telefone interno. – no 801. Entrei no elevador, desci no oitavo, toquei a campainha, zunido, a porta abriu, entrei, Mônica apareceu apressada. - não gosto do imprevisto, - falou irritada. Com minha melhor cara de pau escolhi uma poltrona, a mais extravagante e sentei. – estou com pressa, diga logo o quê quer. – um café, ou talvez uma coca. – não sou tua empregada. Meu olfato de perdigueiro me levou até a cozinha, da geladeira apanhei uma lata de Coca Cola, voltei pra sala, pra mesma poltrona, abri a lata, o liquido espirrou, deixei a espuma baixar e comecei a beber e depois de um educado arroto falei:. – mentira do princípio ao fim, carta bolada por você, é caligrafia de mulher, e por que não completou a sedução? – interrogatório? – responda! – descubra, não é investigador? – não investigo mentiras. – algumas mentiras nunca devem ser reveladas, a verdade pode levar à loucura e fuçar a intimidade não é parte do seu trabalho. – mentira tem pernas curtas e sigilo é minha única prioridade, por exemplo, sei que vende seu corpo, não farei alarde. – veio pra me ofender? – vim pra te salvar. E o bate – bola ficou nisso, ela fria como um peixe congelado e eu de boca abeta como um peixe fora d´água., e lá veio chumbo, anda não bastante grosso. – sempre entra na casa dos outros de bermudas surrados e camiseta suada? – toda vez que tenho vontade. – como agora? – sim, dá menos trabalho pra me despir, um homem preparado vale por dois. – filho da puta! Acabei a coca, acendi um cigarro, a lata vazia o cinzeiro. – cigarro empesta o ambiente. – cigarro me dá sensação de estar vivo. – filosofia de botequim. Na agressão verbal mulher sempre leva vantagem, não ia passar esse vexame, levei o papo pelo caminho do samba do Crioulo Doido. – come miolo do pão? minha mãe tirava o miolo e me dava a casca, – perguntei com ar sonhador. – não como pão, – respondeu raivosa. – come peixe? eu não como peixe, ele faz xixi no mar. Fez menção de se levantar. – espera mais um pouco, tenho algo pra lhe dizer, escuta só, quero escrever uma novela, uma novela sobre o destino do homem no universo vazio, sem Deus, sem esperança, só com sofrimento humano e solidão, o que acha? – acho que é impertinente. – então que tal sobre a libertinagem, com formas sombrias, prazer autodestrutivo, corrida desesperada pelo gozo, mascara da paixão, tipo Marques de Sade, estou pensando num personagem parecido com... – ...está me aborrecendo. Não dei pelota. – fui jornalista, sabia? redigia obituário, éramos dois, um escrevia, outro revisava, eu revisava e adicionava eufemismos, era divertido, escuta só, vai achar engraçado: ”era jovial ou seja alcoólatra” , “valorizava sua privacidade, era gay” , “desfrutava de sua privacidade, era bicha louco”. – puro deboche! – qual seria meu eufemismo? sabe? – era um cafajeste. – não é eufemismo, é a verdade. – chega! Fixei o olhar num quadro, moldura dourada, estilo rococó – barroco, nele um jovem de belos traços, cabelos claros e cachos esvoaçantes, parecia uma menina, não um rapaz, camisa bordada, mangas bufantes, grande chapéu amarelo pendurado no ombro por uma tira, dava pra ver as anáguas, barras rendadas, aquele menino que parecia menina, de pé num campo verde, rodeado de ovelhas brancas, no céu algumas nuvens esparsas, ao longe um bosque. – esse quadro é uma merda! aposto que pagou uma nota preta, garoto afrescalhado, nunca podia ser pastor de ovelhas, pertence num palácio veneziano, é pintura mentirosa, encobre podridão moral, adoça a realidade, tudo falso, na vida real os pastores se vestem em andrajos, seus rostos exibem feridas de frio e fome, os cabelos são sujos, emaranhados, esse pintor pilantra acha que a vida é uma caixa de bombons suíços, uma merda! – o quê? é critico de arte? é de... – ...não interessa, o cara que o pintou é babaca, prefiro um Pollock, impressionista abstrato, jogava sua raiva, sua zanga, suas frustrações, sua alma numa tela sem se ater em formas ou detalhes, tinta sobre tinta, meandros de revolta, esguichos, gritos, a gente sente, eu sinto, perguntado uma vez quando ele considera pronto o seu quadro ele respondeu: “você sabe quando acabará o gozo?” – estou impressionada não pela sua suposta erudição, mas pelo fogo que emana de dentro de você, é um passional. Outro cigarro. – e nada sobre aquela sua incursão noturna? – perguntei. Pareceu pensar, apenas pareceu. – não agora, no momento oportuno. – certo, sou curioso, apenas isso, mas antes de partir faço uma confissão. – uma cafajestada? – não, não consigo tirar os olhos de você, não consigo tirar você da minha mente. Mentira ou verdade? ah, as mulheres, adoram o poder, adoram ser lisonjeadas, ouvir confissão de amor, o máximo! – é mesmo? Coquetismo, sedução, satisfação. – sim! – quer um drinque? – se me acompanhar. Caminhou até o bar. – com gelo? – caubói! Trouxe dois copos, bebemos em silêncio. O charme acabou, tédio se apoderou, ela sorria pra mim, sorriso pra mulher é fácil, pra mim impossível, em nenhuma foto sorrio, ela continuava sorrindo, apenas com os lábios, os olhos não sorriam, lembrou – me da prostituta ao receber novo cliente, engoli o que sobrava da bebida, me levantei, não sabia como me despedir, dar a mão, aqueles dois beijos falso, ou apenas um tchau? dei – lhe a costa e saí. O sol na orla não me encantou mais, ele me lembrou da cara cansada de um garçom no fim da noite. Olhei o relógio, duas horas da tarde, não ia almoçar, estava sem apetite, hesitei, pegar táxi ou voltar andando? atravessei e peguei o caminho de casa, a contragosto, sem energia, passei pelo quiosque, a jovem negra não estava. Caminhando feito recruta cansado tentei me convencer de que tudo fora apenas um acidente, incidente fortuito, em vão, o instinto me dizia que ocorreriam desdobramentos, problemas á vista, não havia mais espaço pra isso na minha vida, dois caminhos no destino, sempre escolho mal, Mônica era prostituta? Saí do chuveiro, tomei um café frio, engoli um Frontal e me deitei, o telefone tocou, não atendi, me deitei, sonhei com Mônica no quiosque me servindo coco, a negra me servindo uísque num apartamento luxuoso. 7 Acordei de madrugada, fazia tempo que eu não me levantava tão cedo, desde quando eu abandonara a coopermania. Catei short, camiseta e tênis, saí, peguei o caminho da praia pela Gomes Carneiro, no posto Petrobrás ainda elas, três prostitutas, Esmeralda acima da meia idade parecendo uma cozinheira aposentada, Jandira um pouco menos que uma velha, desdentada com o rosto mais infeliz que eu jamais vira e Esmeralda, uma jovem negra com rosto de ébano e olhos esbugalhados. Passei por elas, me reconheceram, sorriram, “bom dia, senhoras,” falei, “bom dia moço” responderam, parei e entreguei na mão da velha sessenta pratas, “pro café!”, “obrigada moço, Deus lhe pague!”, adorava ouvir o “Deus lhe pague”, espalhava gorjeta a torta e direita, acrescentava dois reais à corrida do táxi, andava com notas de um real pros pedintes só pra ouvir as palavras mágicas “Deus lhe pague”, eu enfiava na minha cachola superstições e essa era algo que eu não dispensava, não acreditava em Deus, mas acreditava na sinceridade dos que acreditavam. Atravessei e comecei a correr, não agüentei mais de dois mil metros, continuei andando em direção ao Jardim de Alá, em frente ao Caesar Park sentei num banco e olhei pro sol emergindo no mar do Arpoador, deslumbrante, me senti de bem com a vida. Com a respiração quase refeita me levantei. – aqui, à essa hora? Mônica à minha frente vestindo um colant branco, short preto, boné escondendo os cabelos, sombreando o rosto, óculos escuros, nunca a reconheceria. – não parece estar em boa forma, está ofegante, – falou sorrindo. – não te reconheceria, - falei. – não? – mais uma bela mulher na deslumbrante manhã de Ipanema. – muito charmoso, por que não é sempre assim? O sol uma bola de fogo no Leste, a brisa amena, mar calmo, ar marinho, o morro Dois Irmãos desenhado no Oeste e o sorriso de uma bela mulher me purificaram de todos meus pecados. Ela me examinou como se tivesse me visto pela primeira vez. – esse devia ter sido nosso primeiro encontro, - continuou Mônica. – pararia se não me conhecesse? – para te socorrer, está quase desmaiando, – falou rindo. Respirei fundo, exalei e tossi. - cigarro, cigarro. – sempre nessa hora por aqui? – nem sempre, só quando deito cedo, e você? - uns cinco anos atrás sempre, sol ou chuva, coopermaniaco de carteirinha. – e por que parou? – num dia me senti muito cansado, desisti. – ainda se mantêm bem. – obrigado. A conversa sem consistência me impacientou. – está indo ou voltando? – perguntei. – voltando. – te acompanho, pode ser? – estranharia se não perguntasse, é um cavalheiro. – nem sempre. – usa a grosseria como escudo, é vulnerável. – vamos? Ela andava com firmeza, passos largos, a acompanhei com alguma dificuldade, o caminho não era longo, paramos em frente ao edifício dela. – até outro dia, – falei e lhe estendi a mão. Eu sabia que não ia parar por aqui. – te convido pro café da manhã. – estou suado. - adoro homem suado. – nosso encontro, um parêntese na nossa relação, um homem e uma mulher, atração mutua, amor à primeira vista ? podia ter sido, se eu aceitasse teu convite quebraria o encanto. – eu poderia te amar, – falou ao beijar meu rosto. E antes dela atravessar a avenida ouvi: – Deus lhe pague! O sol já esquentava, carros velozes poluindo com gás carbono voavam pela avenida, gente apressada e estressada enfrentando o horror diário, a vida a caminho da não magia, eu previa o recomeço do pesadelo, eu o cínico desbocado, ela a mulher fria e dissimulada. Sentei num banco, quanto tempo daria para ficar olhando pro mar mesmo sendo o mar que eu amava desde garoto, quantas vezes eu conseguiria ficar ali esperando a maré vir e ir sem que me lembrasse como qualquer mortal olhando pro mar de que a vida me foi presenteada, como a todos, ao acaso, casualmente e somente por uma única vez e por nenhum motivo plausível? Voltei correndo, precisava suar, apagar as ilusões. 8 O céu cinza me desanimou, minha cidade com clima paulistano é um horror, o Rio só com sol, céu limpo com nuvens brancas que parecessem elefantes brancos, iguais ao do conto de Hemingway, nos fazem sonhar, nos dão coragem para viver. A heroína do conto é valente, enfrenta seu amante, ele quer o aborto, abordam o trem no vilarejo italiano e vão viver e ter o filho, se felizes duvido muito e eu não estava grávido mas precisava de coragem para viver, cada hora das vinte e quatro do dia. Começou a garoar e eu fui me esgueirando pelas marquises da Pirajá, atravessei e parei no NÉCTAR, tinha ali uma atendente com a qual eu simpatizava, ela me atraia. Não era bonita, nordestina atarracada, do tipo comum daquela região, estatura mediana, pescoço curto, bunda reta, em torno de trinta, mas que rosto! queixo quadrado, maças salientes, pele pálida, olhar plácido, quase sem vida, mas aquele rosto falava: sou triste porque nasci assim, porque meus pais eram tristes, meus irmãos são, minha vida é triste, meus filhos serão tristes também, ela me olhava, eu lia sua vida Severina com uma clareza que me levava às lágrimas. Da primeira vez que me serviu deixei gorjeta, cinco reais, seu rosto serenou, sorriu, falou um doce obrigado, percebi um honesto lampejo no olhar: “você é legal, é bacana, se quiser...”, não quis, eu ia ali apenas para ser visto por ela, deixar a gorjeta, ver seu rosto iluminar, ela me atraia como gente, me atraia como mulher, meu suco de mamão com laranja bebido nos despedimos sem palavras, apenas com olhares pecaminosos, talvez algum dia. Na rua todos tinham minha cara, tensa, mal humorada, deprimida, me forcei a andar, por baixo das marquises, chuva nas travessias, parei no NATURAL E SABOR e tomei um suco energético, guaraná, proteína, cenoura, clorofila, laranja, coisa de doido, pra marombeiro, não me senti melhor, continuei na direção do Bar 20, entrei na MUSICALE loja que vendia discos de segunda mão, alguns dos meus estavam por lá, vendera mil no ano passado, mulher gorda e de óculos me sorriu, era quem me enrolara no preço, sou péssimo negociante pra comprar e pior ainda pra vender, negava meu sangue de semita, dei uma olhada, não ia levar nada, apenas vício, entrava em todas as lojas do gênero e saía de mão vazia, fazia minhas compras na Amazon pela Internet, atravessei na esquina da Aníbal e logo adiante me joguei dentro da TRAVESSA, o ar condicionado violento me bateu no corpo, não me detive nos livros, subi as escadas. Procurei pelo Pelé o sabe tudo sobre DVD e CD. – Pelé, o DVD “Maria´s Lovers!” Pesquisou no computador, virou – se: – não temos! Desapontei. Sentei numa mesa no local reservado para fumantes e pedi um café. – se apagar o cigarro... Mônica a minha frente, amassei o cigarro no cinzeiro, me levantei e puxei a cadeira. – por favor! Sentou – se. – o quê te traz pra cá? – perguntei bastante curioso. – sonhei com esse lugar. – sério? – duas vezes. – não diga. – começa comigo aqui, não é nem dia nem noite, como se fosse noitinha, entende? – interessante. – estou com medo. – por que? – sonhos me assustam, você estava nos sonhos e também estava com medo. – e agora estou assustado, assustado com sua doideira. – a nossa! – acha? – loucura igual a da madrugada da semana passada. – que madrugada? – não se faça de bobo. Não achei conveniente retornar ao que eu tentava loucamente esquecer. – aquele homem ali, o conhece? está te olhando com insistência, – falei. – não quero saber de homem nenhum. – é um senhor fingindo ler um livro. – pára com essa palhaçada! – então se prepare, está vindo pra cá. O homem se aproximou, parou perto dela. – estava com saudade, – falou sorrindo. Observei com atenção, ela fingia surpresa, ele a olhava guloso. – não quero que desapareça de novo, – falou ele, – posso me sentar? – não! – falei. – que pena, entendo, a dama hoje é sua. Voltou à mesa dele, bebeu um pouco da água, recomeçou a ler. Mônica evitava meu olhar, eu nada comentei, ás vezes eu era discreto, um cavalheiro, todas as mulheres merecem pelo menos uma vez na vida conviver com um cavalheiro. - café? – perguntei. – sim. A presença dela me era indiferente, indesejável mesmo, curtir cigarro e café era o que eu queria, mas o pequeno incidente era esclarecedor e eu senti uma ponta de ciúme. O café veio, ela bebeu devagar, aos poucos o rosto dela assumiu a mascara da inocência. – têm muitas pessoas interessantes aqui, lá embaixo encontrei o Toledo o escritor, e a Madalena a pintora, Barreto o cineasta e também a Bibi Ferreira, acho ela extraordinária, assistiu a Piaf com ela? – ninguém consegue incorporar a Edith Piaf e não estou nada interessado no seu petit monde. – é um morcego, morde e depois sopra. – me desculpe, acordei mal, o Rio nublado faz sobressair meu lado negro. – tem mente bipolar, – falou como se fosse medica. Tinha razão, minha bipolaridade, herança de algum antepassado se escondera no meu DNA, essa fagulha maldita me levava com alguma freqüência a maus humores, raivas incontidas. Zanguei, apenas eu me permitia pensar ou falar no assunto. – é sentença ou pergunta? porra, minha mente é bi, tri, multipolar, pode escolher! – definitivamente bipolar! nada de errado em sofrer de moléstia incurável. – tenho outras moléstias bem piores, sou aventureiro, sedutor, gozador, ladrão, vigarista, amoral, diletante, esnobe, beberão, charmoso, cínico, infantil, mentiroso, hedonista, oportunista, irresponsável, cafetão. Olhou -me aturdida. – puxa! mas não deixa de ser bipolar. – e qual é sua moléstia? menopausa, frigidez, cleptomania, mitomania, ser mal amada, besta? ou talvez apenas ser prostituta. Meu cavalheirismo fora pro brejo. Não zangou apenas apagou o sorriso dos olhos e eu acendi um cigarro sem pedir licença e pedi outro café carioca pra mim, outro pra ela. Eu era um bobo, me arrependia sempre e cedo demais, tentei retroceder ao clima de camaradagem. – assisti a um filme, Maria´s Lovers dirigido por europeu, uma pequena cidade no interior americano habitado por emigrantes, sombras e chuva, velhos artríticos, velhas enrugadas, jovens sem brilho, sem glamour, vida sem esperança, aquela coisa da vida passada e repassada, como ela é, o tema? casamento baseado apenas no sexo. – sexo é importante no casamento, – falou Mônica. – tem que ter amor, sem exagero, o excesso separa de amor, nos leva pra cama de outros, o homem se perde no meio de prostitutas, mulher na cama de quem não ama. – drama erótico. – perturbada? você casou com velho rico, impotente, desinteressado, casamento sem amor e sexo. Virou pedra, estatua, não bebeu o café, levantou – se, partiu dura como um poste, pareceu – me pouco feminina, pela primeira vez. Paguei a despesa, saí triste, por que gostava de humilhar ela tanto, afinal nada fizera de errado, agia como todas as mulheres, coquetismo, vedetismo, pequenas inverdades, sim e não uma igualdade insofismável para elas, não são adeptas da reciprocidade, desequilibram a já frágil segurança do homem e depois...já passara tanto por essa pantomima, não curtia mais esse jogo, mulher, sucumbia sempre, me tornara um misógino, mas ainda precisava me convencer disso. Na rua todos ainda tinham minha cara, tensa, mal humorada, deprimida. 9 Encolhido na poltrona ouvia Julie London, canto doa anos 50 do tempo que minha mãe ainda era viva, ela amava a voz de Julie, sorria, seu rosto assumia uma beleza extraordinária, sempre foi bela, musica a tornava belíssima, meu pai a olhava, ficava em transe, se aproximava dela, a abraçava e os dois dançavam, um poema, eram maravilhosos dançarinos, ele a segurava com delicado carinho, homem e mulher ainda apaixonados depois de dezenas de anos. Eu tinha tantas saudades deles. Musica me traziam lembranças, me entristeciam, melancolia e dor. ...minha avó vestida de camponesa, campos de trigos, ondas douradas, vilarejo em festa, violinos, citaras e flautas, formou – se a roda e a hora iniciou, uma roda de homens e mulheres dançando, rindo, cantando, nuvens negras acumuladas, o sol desaparecido, noite, neve, casas atoladas num branco resplandecente, uivo dos lobos, minha avó falou:”não tenha medo, no inverno bicho é homem são solidários, cuidam um do outro, a mantilha aparece, pára, o chefe uiva, as portas das casas se abrem, a luz vindo de dentro raios de sol na neve, caraças de ovelhas são depositadas, as portas se fecham, os lobos as apanham, se saciam e partem com um uivo de agradecimento”, sol de novo, sol e sombras, uma floresta, grandes seculares carvalhos e pinheiros, pedras com musgo, flores campestres, trevos, joaninhas coloridas pousando aqui, acolá, amoras e morangos silvestres, duas crianças, um garoto colhe frutas, tem rosto adulto, meu rosto... Acordei, Julie London entoando Laura, melodia de amor dos meus pais, desliguei o som. 10 Herdei o gosto pelo cinema do meu avô, seu filme favorito Das Niebelungen, de Fritz Lang, épico nacionalista alemão, uma espécie de The Lord of the Ring, uma fantasia alemã sobre o mundo, saga medieval, Siegrfied degola o dragão, mata o rei anão no caminho para se casar com Kriemhild, princesa da Burgundia, se desvencilha da poderosa Brunhilde rainha da Islândia, ela acaba com a vida dele, Kriemhild se casa com Atila o Huno que para agradar sua esposa mata os inimigos de Siegried, “mesmo por ter sido o filme o favorito de Hitler, essa obra não merece desprezo”, dizia ele. Consegui uma copia de Das Niebelunguen depois de muita procura e mil dólares, um amigo transformou a película em DVD. Acomodado poltrona, assistia Das Niebelunguen na tela da TV quando a campainha tocou, Siegfried se banhava no sangue do dragão, seria imortal, uma folha caiu nas suas costas, ponto vulnerável que causou a morte dele, a campainha insistiu acompanhada de batidas. Abri, Mônica entrou, caminhou até o bar, se serviu de uma dose generosa de uísque, a examinei com cuidado pela primeira vez, alta, esguia, sem protuberâncias exageradas, movimentos elegantes, maçãs do rosto um pouco salientes, queixo quase quadrado, gostei muito do nariz, aquilino um pouco acima do normal para mulher, cabelo ligeiramente ondulado, nem curto nem longo, a cor dos olhos, não vi, baixei meu olhar aos pés, pé de mulher me fascinava, tamanho proporcional ao corpo, não magros demais, sapatos simples, elegantes, salto 10, olhei as pernas, perfeitas, nunca me sentira atraído assim por mulher nenhuma como por ela, queria tocar ela, a possuir, se me aceitasse não saberia como agir, sensação de impotência me envolveu. – parou de me examinar? – ainda não. – e por que? – porque estou me deliciando. Mônica fez pose de manequim. – muitas mulheres são inseguras quanto ao seu corpo, – comecei a falar, – nem todas se dão conta que são belas, muitas escondem os seios, parece que se envergonham deles, os seios simbolizam a real beleza e o corpo como é ou como elas imaginam ser em nada acrescenta ou diminui à formosura, seja ela magra ou gorda, baixa ou alta, a imperfeição realça ainda mais a perfeição. Você é bela! Começou a se despir, com elegância, como uma oriental, submissa e vulnerável, eu ainda sentado na poltrona e ela de pé se despindo e o modo dela se despir, deixar cair cada peça era fascinante, Mata Hari, a espiã seduzindo um oficial francês e o tempo todo tão vulnerável. Tirou a blusa, depois os sapatos, com que maestria, e depois se desfez do sutiã, mulher de saia e de seios descobertos, erotismo incompleto, se vestisse calças seria perfeito, e assim ela se mostrou para mim, depois deixou cair a saia, ficou só de calcinha, me falou: – coloque seus dedos nos meus seios. E assim fiz. Pegou uma das minhas mãos e a colocou debaixo de um seio, depois pediu que o apertasse, finalmente despiu a calcinha, o cabelo púbico liso, como o de uma asiática. Estava excitada, eu a olhando nua, percebi que estava ao ver seus mamilos e com movimentos suaves tirou minha camiseta, encostou seu corpo no meu. – sou tua! 11 Voltamos à sala, sentamos no sofá. – obrigada, precisava de companhia, a solidão me assusta. Fui arrumar duas doses de bebida, ela bebeu tudo de um trago, fechou os olhos. – não conheci meu pai, depois do seu desaparecimento minha mãe me disse que falecera, bem mais tarde ela confessou que ele nos abandonara e nunca mais dera sinal de vida, passei muitos anos pensando nele, quando adolescente o imaginei herói, o momento era propício, ditadura militar e todas os eventos da ocasião, inventei tudo, a carta escrevi num momento de desespero, você tem razão, o tal de Altamir não existe, tudo que contei era mentira. – entendo e o nome de sua mãe? – Carolina, Carolina Alves. – quantos anos você tinha quando ela faleceu? – dezesseis. – morreu de quê, sua mãe? – não sei, foi levada pela ambulância pro Miguel Couto. – o quê aconteceu pra ambulância ser chamada? – desmaiou. – quem pediu o socorro? – o porteiro, eu fiquei em pânico. – e não foi visitar ela? – fui, no dia seguinte, mas não estava mais lá. – explique melhor, não perguntou por ela? – perguntei, me disseram que um homem veio buscar ela. – então não sabe se ela morreu, por que falou que tinha morrido? – nunca mais soube dela, nem fui procurado por ela, pra mim estava morta. – podia não estar, pode ainda estar viva, em outras palavras, mãe, pai desaparecidos. – só quero saber do meu pai. – e o que quer de mim? – achar meu pai! – por que eu? Hesitou. – um amigo seu do Ministério Publico me falou de você, o Aristides Ramos. – não é um amigo, apenas ex – colega de faculdade, como chegou a ele? – andei fazendo umas indagações por minha conta, sem resultado, um velho amigo da minha mãe me falou que talvez o M.P. ajudaria. Aristides não era do M.P., era advogado criminalista, inútil tirar a verdade dela. – sinto muito, não trabalho mais como investigador privado, estou aposentado, sou livre, a vida me é fácil, sem amor e sem glória. – não consigo tirar você da minha mente, não consigo parar de olhar pra você, nunca falei isso pra ninguém, nem para mim mesma. Segurou minha mão. – por que essa cara de desdém? – continuou. – é cansaço, – falei sem convicção. - não fique com essa cara de convencido. A abracei. Deixei cair os braços, virei o rosto dela na direção do meu. – vou achar seu pai, mas acho que vamos nos machucar, alias tenho certeza disso. – não, não acontecerá nada de ruim. – por que acha? – porque nos amamos. Deixei por isso mesmo. Não sabia se era amor o quê sentia por ela, estava caminhando na direção da paixão e isso era péssimo, mulher como ela nos leva à aniquilação total, eu não estava disposto a me jogar da ponte Rio – Niterói por desespero como um Werther do século vinte e um. 12 ...noite fria, nevoa na Atlântica, Cristo melancólico, luz pálida de trás da cortina garoada, a cidade cansada, insone, as espeluncas da Prado Junior com as portas cerradas, não a nossa, e nós ali, boêmios da enrugada e velha guarda, calados, nos copos cerveja estagnada, chocha, choca, sobre a mesa fotos de marcas deixadas por garrafas, nos pires guimbas amassadas e cinzas voláteis, silêncio esfumado, luzes camufladas, a porta se abre barulhenta, ela entra, levantamos as cabeças, devagar, com preguiça, perfume violento invade as narinas, colore a fumaça adormecida, a energia que traz com ela se choca à nossa letargia mórbida, nós, ruínas do passado, ela, incandescente beleza, olhares empapuçados se cruzam, ninguém a conhece, jamais vista nos palcos devassos, veio exibir-se ? envolver-nos com a sua magia? bar escuso e escuro refugio de sobreviventes alquebrados, o clube de suicidas, de mutilados cerebrais, de venenosos répteis urbanos, e eu a quem meus pais me ensinaram a não encarar pessoas desconhecidas, pego meu copo com cerveja quente, do canto do olho vejo os demais fingindo tédio, ouço uma cadeira ser arrastada, alguém se levanta, faz a eletrola piscar suas luzes pecaminosas, inútil tentativa de espantar o desespero, tento ver detalhes do rosto dela, a semi - escuridão me impede, sei, tenho certeza que ela sorri, seu corpo inteiro sorri, seus olhos cintilam, brilham, iluminam meu interior, sua pele translúcida emite aura angelical, o nome dela iniciava com a letra M? eu amara dezenas de mulheres com o nome iniciando com M, não ouso perguntar o nome dela, saio pra rua, na frigida noite a procura das não existentes estrelas, olho as luzes congeladas na escuridão, penso nessa cidade safada, sacana que me faz sentir como tudo é diferente, que toda mulher é apenas mulher, arranca algo da gente, nossos segredos, nos despe e desaparece, retorno, alguém grita: o que é que uma garota como você faz num antro como esse? e eu também quero saber o que nós todos fazíamos ali? nos olha, não responde, mulher igual a ela só ouve o que quer, mas não é assim que todas agem?o perigo nos persegue, não há como saber como e quando nos alcança, sonhamos demais, a criança presa dentro daquela garota selada com lambidas da esperança, nadando em direção das glórias está fora do nosso contexto, deslocada, em desarmonia, aqui não é uma pensão para senhoritas, apenas um pesadelo sórdido numa cidade assassina, ela ao mercê de estranhos, seu hálito inalado por moscas, baratas e escorpiões, nos surpreende, pega uma cadeira, sobe nela, estica os braços, alonga o pescoço, pula sobre a mesa, sapateia sobre nossos dedos, pisa nos nossos nomes, descalça baila sobre o piso ladrilhado como se para crianças desabrigadas, tira o vestido, parece despir-se das lembranças, dança para nos, seus amantes faz-de-conta, graciosa e sorridente nos olha, olhamos de volta, a musica para, ela enfia pela cabeça seu vestido vermelho desbotado, calça seus sapatos remendados, aparecera sem aviso numa quase madrugada triste soprando nevoa de perfume barato, seu rosto me aparece disforme como se visto através de uma janela empoeirada, Mônica sai, desaparece na noite... Acordei, ela ainda ao meu lado, a abracei, ela sorriu, eu estava encrencado. 13 RIO SCENARIUM, rua do Lavradio, casa noturna da Lapa, um sobrado onde funciona um antiquário, espaço confortável e arejado, as peças em exposição um charme, no térreo palco para show, a comida é mínima, os preços salgados, muita cerveja, é serviço uma merda, a casa freqüentada por todas as idades predominando os jovens. Peguei meu cartão antes de entrar, não paguei, eu era convidado para festa de vinte e cinco anos de bodas de um amigo, passei pelo palco, conjunto Manga de Colete, samba e choro, uma dúzia de dançarinos, subi pro segundo andar, um pedaço reservado para a festa, procurei pelo anfitrião e esposa, os encontrei circulando como convém aos hospedes, dei abraço ao marido, beijo no rosto alegre da madame, um papo a jato, “como vai?”, “tudo ótimo”, e fui á procura de lugar pra sentar. Não costumo sair na noite, e pouco na Cidade, ás vezes no Municipal quando um programa me agradava, Sinfônica com Stravinsky, Bartok, Wagner, Mendelshon, nunca Mozart, Bach ou Beethoven. Sair de Ipanema com intenção de ir ao Centro, up town, não me proporciona muito prazer, o caminho que me leva ao destino passa pela Atlântica, Túnel Novo, o táxi embica em direção do Botafogo, continua pelo Flamengo, dobra na Lapa, Evaristo da Veiga, ponto final o Teatro Municipal. Lembranças do meu Rio do “meu tempo” como repetia sem cessar meu velho, Avenida Atlântica, duplicada, meu velho xingava o autor do projeto, ele repetia: “destruíram a praia como Deus a construiu e o Homem a mutilou, aterrou o que tinha de mais valor, os bancos de areia que nos proporcionava a mim e aos meus amigos ondas pelas quais deslizávamos no surfe de peito, o jacaré, e agora só tem ondas caixote quebrando na beira, merda de industria automobilística, progresso e desordem, duplicação para agasalhar veículos, matou o paraíso, a Princesinha do Mar”. Eu procurava imaginar a praia do velho, algumas fotos antigas me davam escassas informações. Á minha esquerda o Copacabana Palace, remodelado e atualizado, belo e imponente, arquitetura francesa do inicio do século XX, o meu avô ali se hospedara quando aqui aportou chegado do inferno, depois a Praça do Lido, no fundo o Edifício Solano, onde ele se mudara.em 1941 , “eu era ainda colegial”, contava meu velho, “e na praça o Restaurante Lido, comida boa e pista de dança, demoliram, arrasaram, restou o nome.Lido, um pecado”. Na saída do Túnel Novo, o General Severiano, a colonial sede do Botafogo, o táxi passa pelo Mourisco, enseada do Botafogo com contorno recauchutado, não se rema mais ali onde o velho ganhara muitos páreos pela Estrela Solitária, Flamengo em seguida, o Edifício Biaritaz, marco arquitetônico Belle Epoque, apartamentos de luxo, a família mudara pra lá em 1943, o táxi voa, dobra a esquerda, de longe o Edifico Brasília, o escritório que levou meu avô a ruína, os Arcos e a Lapa alegre e safada, bons momentos ali vividos por farristas como o meu velho, Evaristo da Veiga, à esquerda a Cinelândia:”desfigurada e decadente, que pecado, não fora preservada, o Edifício Odeon, o fantasma ainda respira, tombado será eterno” repetia meu velho. Nenhum conhecido, no SCENARIUM, resolvi me mandar, já fizera presença, bastava, indo em direção a escada escutei: – senta aqui, conosco. Reconheci a voz de Mônica. Na semi-escuridão sentada ao lado de um cara, me aproximei sem muito entusiasmo. – é amiga ou parente do nubente?, – perguntei passando por cima dos cumprimentos educados. – não eu, ele, é o superior dele no escritório, o doutor Anselmo Fragoso. – de Fragoso & Fragoso e etc e tal? - sim, – e me estendeu a mão. Percebi um sorriso congelado num rosto muito branco, apertamos a mão, a dele mole e suada. Sentei. – amigos? – perguntei. – somos noivos, – respondeu Anselmo. Levei algum tempo para me refazer da surpresa. - sem bermuda, camiseta rasgada e chinelos? – falou ela com muita naturalidade. – às vezes o mendigo vira príncipe, – respondi seco. – adoro seu senso de humor. Anselmo olhava, parecia não entender. - garçom! – berrei. O dito se aproximou arrastando os pés. – um chope! – o serviço aqui é péssimo, – falou Anselmo. – concordo! – muito elegante, calça cargo clara, camisa azul escuro, da Richard? e que sapatos! - não, da Osken e os sapatos da Mr.Cat! – garotão! não quer se servir dos petiscos? – falou Mônica. – vou esperar pela bebida, obrigado. A examinei, bela e elegante, colar de perolas, brincos da moda, argolas exageradas, tinha pescoço longo, caiam – lhe bem, sorria, parecia se divertir. – o quê achou? – perguntou ela. – é rainha. – é encantador. – é a minha segunda natureza. – e sua primeira? – é segredo, talvez a divulgue em breve. Anselmo parecia entediado. – advogado também? – perguntou. – ex, sem profissão no momento, morador de Ipanema e boa vida. – que inveja, - respondeu, parecia falar a verdade. – é investigado privado, – falou Mônica. – também ex, não investigo nem minha conta bancária. O chope apareceu, o garçom marcou o cartão e se afastou ainda arrastando os pés, dei um longo gole. Musica vindo do térreo, não era mais samba ou choro, percebi sax, guitarra, bateria e piano, o som me era familiar, era o conjunto Olho d´Água, no verão fazia ponto na praia em frente ao Country, ótimos profissionais. – não dançam? – perguntei, – o som deles é de primeira. – infelizmente eu tenho dois pés esquerdos. Fingi um riso, piada super batida. Mônica me olhava, mandou um beijo à distância. – se incomoda se convido a Mônica? – em absoluto, se ela quiser. Ela se levantou e me puxou pela mão. O cara sorria bobamente, se levantou como um cavaleiro quando uma dama se coloca de pé. Era alto, mais de que eu, encorpado, um terno bem talhado ombros um pouco curvados, cabelo penteado a la Ben Afleck, achei ridículo, o porte era de quem não era amigo de exercício físico. Descemos as escadas, o conjunto tocava Ari Barroso, segurei ela pela cintura, a puxei junto a mim, colou ao meu corpo, alguns passos, boa dançarina, seguia com leveza minhas evoluções. – dança bem, – falei. Colou ainda mais o corpo ao meu, senti o volume crescer entre as pernas, colocou a mão de leve no meu pescoço, cabeça sobre meu peito, diminuí o ritmo dos passos, dançamos como um par de namorados ao luar. – vamos sair! – falei. Não era uma pergunta, era uma ordem. – sim, - respondeu no meu ouvido. Saímos, entramos num táxi, a levei à uma espelunca da redondeza perto da Praça Tiradentes, no passado eu passara ali algumas horas a espera de um chantagista, lugar nojento, sujo, barato, joguei uma nota na direção do crioulo gordo atrás do balcão, subimos, o quarto fedia a mofo, o banheiro a mijo, lençol na cama fingindo limpeza, tapetinho roto, persianas bêbadas, janelas empoeiradas, luz fraca escondendo papel de parede rasgado, não olhei pro chão, conhecia bem as baratas ali hospedadas, esperei ela protestar, ou me xingar, ou sair, estava se despindo em silêncio, nus e em pé nós olhamos, me aproximei, a beijei, ela correspondeu aflita, línguas bailando, sugando saliva, a deitei, despejei todos os meus conhecimentos, Mônica gemia, acariciava minha cabeça, a conduzi aos lugares certos, subi beijando as coxas, a barriga, os seios, o pescoço, ela virou e montou. – obrigada! – falou na porta da espelunca. – não há de quê. Sinalizei um táxi, entramos, até o táxi entrar na pista do Aterro nenhuma conversa. – gostou? – perguntei. – odiei. – que pena, foi meu presente de noivado. – comportou –se como um garoto, ciúme está fora de moda. – nada disso, desfaçatez deve ser castigada, é meu lema. Na AtLântica perguntei: – quer fazer uma boquinha? o Don Camilo é ótimo. – prefiro tomar um banho se não se incomoda. – toma lá em casa. – não obrigada, preciso do meu xampu, cremes, pasta de dentes e se não se incomodar quero parar numa farmácia e comprar um sabonete hospitalar, quero me desinfetar. O táxi parou, ela segurou minha cabeça, beijou meus lábios, seus lábios pareciam gelo. Saltei, o vento vindo do Sul era frio, menos frio que os lábios dela. 14 Aos domingos eu almoçava no TERZETTO na Jangadeiros, excelente comida e serviço, ambiente tranqüilo e pouco barulhento, fabricam o próprio pão, impossível de resistir. Por ser localizado perto de onde morava minha freqüência ali era assídua. Donos, garçons e até os cozinheiros eram meus amigos, mesmo quando a proibição de fumar foi totalmente adotada não deixei de aparecer por lá, tinha minha mesa reservada nos fundos, perto da parede, nunca olhava o cardápio, minha refeição quase sempre igual variando apenas o prato principal, suco de tomate, salada verde, massa ou peixe no sal grosso, fruta de sobremesa, café expresso. Anselmo Fragoso apareceu à minha frente, cruzei os talheres no prato, esperei – é Montenegro, não é? como vai? ficamos tão pouco naquela festa que fiquei com medo de errar seu nome. Não respondi e continuei olhando para ele, camisa social, calça vincada, me estendeu a mão, não correspondi . Recolheu a mão com naturalidade. – se incomoda se o acompanho? o restaurante está lotado. Incomodava, sim, mas fiz o gesto em direção a cadeira à minha frente, sentou. – costuma vir muito aqui? – sempre! – excelente comida e bom serviço. – sim! Recomecei a beliscar a salada, o garçom se aproximou, se dirigiu ao Anselmo. – bebida? – caipirinha de limão com vodka Smirnoff, e me traga o cardápio. Virou – se na minha direção: – Smirnoff embora nacional é uma das melhore vodkas do mundo. Continuei com a salada, o garçom voltou com o cardápio e o entregou ao Anselmo. – por favor me traz aquele pão maravilhoso. Enfiou a cara no cardápio, o garçom esperou, terminei a salada, o observei, sua mão direita tamborilava sobre a mesa, estava nervoso, encontro nada casual. O garçom pulava de um pé pro outro, dez minutos ainda sem escolher, finalmente falou: – ravióli de mussarela de búfala ao molho de tomate e pesto, e meia garrafa de Chardonay chileno e mais uma caipirinha. Meu peixe ao sal grosso apareceu, o garçom veio me mostrar como mandava o protocolo, sinalizei que não precisava, minutos depois colocou o prato à minha frente, pedaços generosos, brancos e limpos de pele e espinhas, batatas cosidas acompanhando. – você é frugal. - só como o necessário. – pois eu gosto de comer, mas não aprecio peixe. Coloquei os talheres cruzados no prato. – por que veio ? – coincidência. – mentira!. Pigarreou, bebeu.da caipirinha, pigarreou de novo, esperei ele se decidir. – conhece a lenda de Aquiles? – perguntou. – não é lenda, é poema épico do Homero. – sim, sim, Aquiles o personagem principal. – eu apostaria na Helena. – já que conhece tão bem essa história me diga por que Aquiles era tão furioso? – Aquiles, você ou eu? Menelau o corno, não sou eu, é você? Paris, ainda vou descobrir, Helena seria Mônica? pode ser, ambas se comportam como prostitutas. O garçom trouxe o prato do Anselmo, ele o colocou de lado seu rosto assumiu feição de raiva. – um aviso, se afaste dela! – por que? – porque vamos nos casar. – parabéns! é negócio ou amor? – ambos. – estranho, eu podia apostar que você era gay. Levantou – se , saiu sem pagar a conta. Morri em duzentas pratas. 15 Ameaças nunca concretizadas, cão que ladra não morde, sábio ditado, não gosto de ser empurrado contra a parede, dessa vez fui ao telefone e disquei, depois de cinco toques ela atendeu. – eu! – falei. O outro lado do aparelho mudo. – hoje fui ameaçado pelo Anselmo. Ainda sem resposta. – preciso saber se de fato você e ele vão se unir em sagrado matrimônio, gostaria que me esclarecesse, pessoalmente. Desliguei. Se ela aparecer tudo bem, ela que se danasse, eu tinha certeza que viria, mulher não gosta de desafio. Coloquei o mp3 de MPB e curti a voz de Dick Farney, Tereza da Praia minha favorita, me aconcheguei na poltrona e cochilei. Acordei com a campainha, no CD Jobim e Elis Regina, Tristeza Nunca Mais, abri a porta, ela entrou sem cumprimentar, expressão corporal animosa, foi até o bar e se serviu de uísque, engoliu tudo de uma vez, se jogou na minha poltrona, pequena e inútil desafio, sentei no sofá e acendi um cigarro. – conta! – falei. Começou: – os Fragoso são amigos de família, ajudaram minha mãe, se tornaram íntimos do Nonato, o ajudaram nos contratos, se encarregaram da parte financeira, aplicações, o defenderam de ações litigiosas, contatos políticos ajudaram nos negócios, negociavam com os demais empreiteiros, continuaram cuidando de tudo mesmo depois o falecimento do Nonato, negociaram a venda da empresa com extraordinário êxito e... –... e ganharam um monte de dinheiro com o domínio que tinham sobre Nonato Nogueira e continuam com a gerencia financeira? – sim! – me corrija se eu estiver enganado, você aceitou o casamento do Anselmo devido à chantagem, os negócios do Nonato como de todos empreiteiros são, eu diria, no mínimo confusos, repletos de negócios ilícitos, era diretora na empresa? – sim, diretora de RP. – são advogados, manipulam as leis, exigem o casamento, querem tudo, Anselmo é homossexual, precisam manter a dignidade da família e da empresa. Serviu -se de outro uísque, voltou à poltrona, bebeu aos poucos, fechou os olhos devagar, eu acendi outro cigarro, Paulinho da Viola cantava Nervos de Aço, desliguei o som. Mônica acordou sorrindo, seu sorriso penetrou fundo no meu peito, espalhou - se pelo corpo, estremeci. – já foi alguma vez ao zoológico? – perguntou ela. – não. – verdade? Parecia não acreditar. – animais enjaulados me deixam nervoso, não há motivo para os visitar, nada posso fazer por eles, nem eles por mim, – respondi. – eles podem nos ensinar muito. Ela parecia estar perdida num sonho. – a primeira vez que meu pai me levou ao zoológico eu tinha treze anos, paramos primeiro junto à jaula dos macacos, lembro que fedia muito, o fedor da morte, um macaco pulava de um galho pro outro sem parar, dava pra saber que enlouquecera por estar ali enjaulado e crianças riam do coitado, percebi que me sentia igual àquele macaco, pulando de um lado para o outro sem saber como escaparia, comecei a chorar, meu pai me levou até as gaiolas dos pássaros que aparentavam liberdade, adorei os pavões, belos e orgulhosos, eu sabia por que se exibiam, era para fazer aquilo com as pavoas, depois quando escureceu paramos em frente às zebras, duas delas corriam de um lado para o outro, uma parecia querer escapar da outra, “faça as parar!”, gritei para meu pai, mas o macho encurralou a fêmea, montou nela e aquela coisa grande e melada entrava e saía de dentro dela, fluido viscoso cobriu os flancos dela, meu pai segurava minha mão com tanta força que doía, já escurecia e ele me levou até um cato ermo, atrás de uma arvore, beijou meu rosto e depois beijou os lábios como se fosse meu namorado, passou a mão pelo meu corpo, pelos meus pequenos seios, tirou minha calcinha, me deitou, me lembrei da mulher zebra, ela sentira tanta dor como eu senti naquele dia? Senti asco, queria sumir dali, ela continuou: – mas meu pai me amava, durante o ano inteiro me levou ao zoológico, esperava escurecer e me levava praquele lugar, sempre me beijava como um pai beija a filha e depois agia como se fosse meu namorado, e ele sempre chorava depois e pedia perdão, me dava presentes e dinheiro, nunca recusei, o amava demais. Depois daquele ano nunca mais me levou ao zoológico, ele nos deixou de um dia pro outro, a mim e a minha mãe, nunca mais o revi, eu o amava tanto. Ela parou, eu nada falei, de fato não tinha nada para falar, talvez porque não acreditava nela, bem, quero dizer eu acreditava que ela acreditava no quê tinha contado, ou pelo menos ela queria acreditar ser verdade, um ser muito estranho se encontra ali à minha frente, precisava me livrar dela, era complicada demais pra mim. A deixei dormindo na poltrona, eu deitei no sofá. Quando acordou era de manhã, parecia não se lembrar de nada, tomou um café, me beijou no rosto e saiu. 16 ...procuro o endereço de Ramos & Filhos na lista telefônica, táxi, Rio Branco 1, na portaria indago pelo escritório, do décimo primeiro ao décimo quinto fala o porteiro, salto do elevador no décimo primeiro, examino a situação, dois seguranças, luxuoso balcão atendimento, belas e elegantes meninas, sorriso congelado no rosto, cinco pessoas esperam sentadas nas poltronas, tapete, quadros, eu podia entrar e arrebentar tudo, dar porrada nos segurança, assustar as recepcionistas, não valia a pena, subo ao décimo segundo, o mesmo esquema, nos outros andares o mesmo, no décimo quinto uma moça e um computador, nenhum segurança, ninguém na sala, entro e me identifico, doutor Savedra quer falar com doutor Aristides Ramos, “mas aqui é o arquivo central, auditório e biblioteca, o senhor precisa procurar nos andares de baixo”, droga, seguro a garota pelo cabelo, ela se debate, uma bolacha no rosto, ela sossega, “endereço do Aristides, anda logo, estou com pressa”, largo ela, ela mexe no computador, “escreva no papel”, embolsei, “se precisar de homem me chama!” Marlowe na antiga Los Angeles resolvia tudo no muque, batia o pé na calçada, enfiava a porrada, tecnologia de ponta inexistente, e eu com um cigarro entre os lábios consegui pela Internet, telefone, endereço e tudo mais que não me interessava. ...acordo, são sete da noite, pego a Glock e a coloco no cinto, nas costas, visto um blusão, no rosto óculos escuros, desço, entro no táxi, mando ele seguir pra Ipanema, me coloco em frente da entrada do edifício luxuoso, acendo um cigarro, atravesso a pista, me encosto na palmeira, no canteiro central, a lua cheia reflete raios de prata, do mar manso ouço o repetido som das ondas se quebrando na beira da praia, o odor da maresia me faz tossir, ligeira brisa vem do Leste, buzina melodiosa me acorda, carro preto pisca as luzes em frente à garagem, atravesso de novo a avenida, a porta da garagem abre, lenta, me coloco atrás do carro, entro na garagem, espero até que o motorista o coloca na vaga, um negro alto e encorpado sai do veiculo, bate a porta, me aproximo. – é do Aristides? – quem quer saber? – quem pergunta sou eu, responda. – por que não subiu direto? – seu merda, fala! Com o soco inglês entre os dedos acerto a cara do negão. Desaba, chuto suas costelas, ele geme, chuto de novo. – fala! – é o nono. Pego o elevador de serviço, salto no nono, toco na campainha, a porta entreabre, empurro, Aristides tropeça para trás, pego o soco inglês e me farto da cara dele... Assim Sam Spade agiria, ele está fora de moda assim como o soco inglês está. Antes de pegar o táxi deixei as chaves com o vigia com a recomendação de as entregar a Mônica. Desci no edifício do Aristides, entrei, pedi ao porteiro anunciar o doutor Monteverde ao doutor Aristides Ramos, esperei ele terminar a conversa no telefone interno, o porteiro me acenou com a cabeça, entrei no elevador, no nono toco a campainha, Aristides atendeu, me deixou passar, sentou numa poltrona e me apontou outra. Sala de proporções quase exageradas, decoração e mobiliário clean, tudo branco, quase brilhante, nenhum tapete no piso de mármore, nenhum quadro nas paredes, nada de cortinas, iluminação férrica, parecia sala de interrogatório de polícia de com cheiro de riqueza. Aristides, cabelo louro esbranquiçado, rosto pálido um pouco vincado, olhar tranqüilo, não mudara muito, não se mostrou hospitaleiro, não ofereceu nenhuma bebida, era de se esperar, o papo não ia ser fácil nem agradável, ambiente quase hospitalar inibiu minha vontade de fumar. – ao que devo sua visita? – informações. – e por que as daria? – porque está curioso. – deve ser importante pra você pelo modo repentino que apareceu. Não respondi, sabia que vinha mais, esperei. – sei da sua vida, deixou a profissão, virou investigador, teve alguns casos de pouca importância, seu ultimo te envolveu com um mafioso, ganhou bastante dinheiro com certeza de modo pouco licito, vive em conforto como um hippie idoso, nada edificante! – palmas pra você! sou um herói que aprendeu muito e tudo que sabe está errado, chama –se de peripécia ou peripeteia, pode escolher e também não uso Viagra. – filosofo e também humorista? interessante, continua adepto da ação física? a ação é inimiga do pensamento, garanto. – tomarei nota, sobre você não sei nada e nunca me interessei, pelo jeito está bem na profissão, rico, solteiro, mas o que me traz aqui são assombrações, fantasmas. – interessante de novo. – me disseram que durante a redentora você foi do DOPS, espero que diga a verdade e não apenas um Deus me livre! – negativo, não tive nada com aquilo. Quase acreditei, seu rosto parecia ser uma asa de anjo. – tudo bem, pouco me importo desde que diga o que me interessa, conhece Mônica Nogueira de solteira Alves? – de nome, viúva do empreiteiro, todos a conhecem. – mente, ela me disse que foi você quem me indicou para encontrar o pai dela. – pode ser, não me lembro. – e ouviu falar no Moacir Alves, o pai dela? – nunca! – e sobre um insurgente da época do Araguaia apelidado de Cacate? – não! – permita – me esclarecer um pouco mais. – vá em frente. Contei sobre o fuzilamento, a carta, a suposta evasão, a certeza de Mônica do pai estar vivo, ele escutou em silêncio, mas eu percebi ligeira mudança facial, pôquer em andamento. – daria um belo romance. – se souber algo gostaria que falasse, em nada te prejudicará, não te envolverei, preciso ajudar a Mônica. – ajudar? com certeza vai aumentar sua conta bancaria, ou será que está de affair com a pobrezinha da órfã? A tranqüilidade dele não era de um jogador de pôquer, era verdadeira, confirmou minhas suspeitas, todo aquele papo de guerrilha de Mônica era furado. – se procura por compaixão veio no lugar errado, não curto compaixão, – continuou. Dali não sairia nada, eu sabia que ele sabia e que eu sabia que ele sabia, me levantei, agradeci a hospitalidade, fui até à porta, não me acompanhou, não tínhamos apertado a mão, decididamente nunca seremos amigos, daqui pouco tempo seremos inimigos. Duas da madrugada, a lua ainda dominando, Arpoador ao longe o guardião de Ipanema, a praia iluminada, as luzes um colar de perolas, String of Perls, sempre o jazz em minha mente, Count Basie e sua banda, poucas luzes aparecendo nos edifícios, insônia, bacanais, aniversários, vida sem fronteiras de trás das paredes, ao longe os luminosos dos hotéis, o calçadão sem viva alma, decidi enfrentar a volta a pé, a Glock na cintura me deu segurança, nessa bela cidade coisa muito feias podem acontecer, curiosos talvez vocês perguntam: ”o quê esse sabichão foi fazer lá, no apê de Aristides se nada conseguiu ou resolveu?” pois eu alcançara meu objetivo, fazer marola no mar plácido da safadeza tranqüila dos intocáveis, cadenciei os passos, resmungando meu mantra preferido, foda – se! foda - se, o sudoeste começou a soprar, amanhã chuvas, o Rio triste, o carioca tinha senso de humor, quando tempo era ruim dizia: ”tem muitos paulistas no Rio”, de longe vi duas sombras perto de um quiosque apagado e tenebroso, coloquei a Glock na mão direita, me aproximei sem pressa, sombras corpulentas, imóveis se colocaram no meu caminho, Aristides trabalhara rápido, um carro estacionado junto ao canteiro central, coloquei as mãos para trás, parei. – com licença! Riram, dois cassetetes nas mãos, daqueles que a Guarda Municipal usa, madeira enrugada de quase um metro, apontei a automática, as risadas congelaram, abriram espaço, atravessei e dei um tiro em cada pneu, voltei ao calçadão, não olhei para traz, um homem prevenido vale por dois, a guerra começara e eu estava satisfeito. Entrei no IRISH PUB, na Jangadeiros, casa dos gringos saxões, pedi uma cerveja preta, relaxei, gostava de olhar pras garrafas enfileiradas na meia sombra e os copos brilhando, pareciam ansiosos, os copos, me divertia vendo o barman entornar a bebida neles, os colocar na bandejinha, um guardanapo branco ao lado, eu gostava de sorver a bebida com pequenos goles, devagar, a ultima bebida na quase madrugada, maravilhosa sensação. Loura de fechar o comercio entrou, olhou ao redor, a louraça faria um monge esquecer os votos de castidade, nenhum gringo levantou a cabeça, louras eles tinham de sobra na terra deles, ela sentou ao meu lado, “paga uma?”, me levantei, paguei a conta, e saí, louras só na tela do cinema. !7 Devia ter telefonado, mas não quis, fiquei parado dez minutos em frente ao edifício, a luz na sala estava acesa, entrei, o porteiro da noite se aproximou, – sim? Não dei papo, o empurrei, fui direto ao elevador, toquei a campainha, de novo e de novo, teimei ficar ali até que abrissem a porta, insisti com toques seguidos, a porta abriu, Mônica de penhoar. – vai acordar o edifício inteiro! Dei um ligeiro empurrão, entrei, ela me seguiu. – tava deitada? - sim, por que veio? – estive com Aristides, o tal que você me disse que era do Ministério Publico. – ah sim! e como foi? – como esperava. Percebi que ele sabia. – no calçadão fui abordado por dois gorilas dele. – te machucaram? – ninguém me machuca. Aristides apareceu na sala vestindo pijamas de seda e pantufas, não me surpreendi. – porra, parece um feiticeiro, está lá e de repente está cá –, falei. Mônica se recolhera num canto da sala. – droga mulher, se prostituindo não te leva a lugar algum, nem ao encontro de pai desaparecido, há quanto tempo estão nessa farra? aposto que bem antes de me conhecer. Aristides sorria, pensei lhe dar uns sopapos, mas minha raiva era comigo mesmo, a Mônica? apenas uma mulher e em mulher não se deve confiar, meu velho me dizia: ”mulher quando quer te enganar não tem como impedir, você a tranca no armário e ela te engana com o cabide”, o velho era bem escolado, comecei a rir. – qual a piada? – perguntou Aristides. – te conto no momento oportuno, não sei ainda em que dia, talvez quando te encher de porrada. Saí sem me despedir. Voltei aborrecido, preferia não ter ido até ela, comecei a duvidar da minha sanidade, se eu gostava de mulheres safadas essa era a rainha, me olhei no espelho, não havida duvida, era eu mesmo, um rosto muito tenso, eu estava vivendo com muita pressa, muita intensidade, precisava por o pé no freio. 18 Quando acordei já era onze da manhã, dormira muito bem, estava de bom humor, ser enganado por mulher não me aborrecia, esse negócio de paixão, ciúme era para otário, meu velho me dizia: ”mulher é igual a ônibus, perdeu um é só esperar que outro aparece”, o velho quando vivo parecia muito circunspeto, marido fiel, pai exemplar, mas agora recordando todas as suas tiradas referentes às mulheres e sexo comecei a desconfiar que fora um bom sacana, pelo menos disfarçava bem, pontos pra ele, parei de pensar nele, levaria meses para terminar com as lembranças. Bebi café da garrafa térmica, ruim pra dedeu, me acomodei na poltrona, acendi um cigarro, meu fiel companheiro e fiquei matutando, o Aristides tentara me agredir com os seus capangas para me afastar de Mônica ou seria devido a minha atuação? entre les deux mon coeur balance, só que não se tratava de duas mulheres, mas de duas decisões a tomar, de dois caminhos a trilhar, desistir ou continuar. Descartei a Mônica, uma aventura banal apenas, mas o pai dela estaria vivo? e se vivo onde? balancei a cabeça, besteira, e se tudo era mentira pra que me preocupar, mas por que fui procurado por ela? por que aquela atuação teatral e burlesca dela? por que eu? acendi outro cigarro, a ponta acesa, falou: “deixa de ser besta, sei que já decidiu, vai querer a fundo, vai ter que ralar”. Mandei o cigarro à merda, merecia castigo, o amassei no cinzeiro. O telefone tocou, ela sem duvida, não atendi, desliguei o aparelho da tomada, coloquei minha indumentária de praxe e saí pra almoçar no a quilo FAZENDOLA também na bendita rua Jangadeiros. Ao voltar percebi um bilhete jogado por debaixo da porta, era de Mônica, só podia ser, o abri e li: ”não me abandone”, fiquei olhando pras palavras sem saber o que pensar, não o amassei e nem o joguei num canto, o coloquei em cima da mesa, teria que decidir, pura perda de tempo, já sabia que ia falar com ela, eu tinha coração mole e aprendi a gostar dela, jurei pra mim mesmo que seria apenas amizade, nada de amor e sexo, amor, palavra sem graça, chocha, como é possível que poetas como Bandeira, Vinicius aceitassem uma palavra tão sem vida, sem ressonância, sugeria menininhas sorridentes, vestidinhos amassados, sorrisos rosados brincando no jardim, a roupinha de baixo sem graça, cheirinho de lavanda. Deitei, demorei pegar no sono. 19 ...meu avô se levanta cedo, uma hora antes dos outros, em frente ao espelho do banheiro mistura com o pincel o sabão branco como neve, espalha a espuma sobre o rosto, abre a navalha e a desliza sobre o rosto, canta baixinho músicas do lugar onde nasceu na língua nativa num tom desafinado e depois na cozinha toma um chá e lê o jornal, coloca o jornal sobre a mesa dobrado com cuidado e em seguida espreme laranjas num pequeno espremedor antigo, leva um copo do suco para minha avó, depois volta á cozinha e espreme, espreme mais laranja, joga os bagaços na late de lixo, coloca o suco numa jarra e a leva com cuidado para não derramar nem uma única gota e a coloca sobre a mesa da sala, em seguida acorda meu pai, minha mãe e a mim, a minha avó ainda no quarto, ele volta à sala, se senta espera calmo, nos aparecemos, sentamos ao redor da mesa e ele serve um copo de suco para cada um muito cerimonioso, serio, compenetrado, espera cada um de nos terminar de beber, colhe os copos e a jarra vazia e volta à cozinha, na pia lava com a destreza de quem está muito acostumado com essa tarefa, coloca depois tudo no armário de louça, apanha o jornal de novo e volta à sala, se senta na poltrona e inicia a releitura... Acordei melancólico, triste de tantas saudades, saí do quarto, fui até a estante, peguei o álbum de fotos, folhei, parei na pagina onde estava a foto do meu avô, olhei longamente, queria ter ele por perto, ele me aconselharia, fechei o álbum o recoloquei no lugar. Mal colocara o telefone na tomada, ouvi a campainha, olhei o relógio, oito horas, Mônica acordara cedo, atendi. – posso falar? – voz desanimada. – diga! – não fique zangado, ontem não... – ...por favor, nada de mentiras, me acha um banana total? – está bem e nós como ficamos? – perdemos alguma coisa, não sei exatamente o quê. – não é tarde para voltar atrás. – se acha a mulher do ano? nossa relação nunca foi saudável. – você é meu herói! – que é isso? não temos mais quinze anos. – ainda temos muita vida pela frente. – tenho mais o que fazer do que envelhecer com você. – não me trata como se não existisse, tem muito em mim que desconhece. Estava ficando cansado dessa conversa, não queria bater o telefone na cara dela. – é me diga que é inofensiva, – falei desanimado. – quando te vi pela primeira vez pensei, este é o primeiro dia do resto da minha vida. – chavão, isso é verdade em todos dias tirando um, o dia que em morremos. – é muito centrado no seu eu. A conversa tomava um rumo desagradável, resolvi dar um chega pra lá. – me fala sobre Aristides. Levou algum tempo para falar. – é um amigo. – amigo não transa amiga, seria quase um incesto. – você não entende. – eu devia estar puto da vida, mas não estou, portanto ficamos assim, me telefona quando quiser e se quiser me encontrar nada contra. – obrigada! – agora me escuta bem, vou até o fim, destrinchar essa meleca toda, entendeu? – vá a merda! Desligou. Cheiro de comida entrou pela janela, feijão e alho, não me apeteceu, me enjoou, fechei a janela, peguei a garrafa do bar, bebi pelo gargalha, minha auto – estima cavalgou pelo apartamento, continuei com a garrafa até ela cair da minha mão. 20 Telefonei pro escritório dos Fragoso, a quem atendeu pedi que me informasse o endereço da residência do doutor Anselmo Fragoso, me conectou a uma das secretárias, eu sabia que não seria informado de pronto, sempre a pergunta, “quem quer saber?” Já bolara um enredo, não complicado, algo plausível para uma jovem suburbana, “é das CASAS BAHIA para entregar uma geladeira, a BRASTEMP, nosso computador não registrou direito, consta um endereço de São Paulo” , “um momento”, segundos depois voltou e me deu um endereço na Vieira Souto, pelo numero percebi ser longe de casa, talvez nas cercanias do COUNTRY CLUBE. Ao escurecer peguei um táxi na Teixeira de Mello, chegado perto do COUNTRY CLUBE mandei reduzir a velocidade, encontrei o edifício colado ao clube, dei cinqüenta reais ao taxista, pedi para que aguardasse, esperei num canto escuro junto ao edifício e depois de dois cigarros e quarenta minutos cansativos, vi um carro estacionar junto ao meio – fio, Anselmo saltou, apressado, a limusine permaneceu, bom sinal, significava que o cara retornaria logo, entrei no táxi e esperei. Eu não tinha preconceito aos gays, não gostava dos que motivavam cenário cultuando os gays, quem não era a favor tinha que ser contra, mas eu admitia a genialidade neles nas artes, bons escritores, poetas, artistas, couturiers, só pra citar alguns mais conhecidos, Fassbinder, Foucaault, Garcia Lorca, Gaultier, Genet, André Gide, Rock Hudson, Elton John, Sir John Guilgad, Somerset Maughan, Virgina Wolf, Allen Ginsberg, lista continua e longa e bem eclética, eu tinha uma teoria sobre homens gay, era uma espécie de imaturidade levada à maturidade, uma procura confusa de um pai, eles adoram as mães, pouco falam dos pais, de nada importam as teorias cientificas e pra falar a verdade de nada adianta qualquer especulação a respeito, os gays estão aqui pra ficar, desde a antiga Grécia. Anselmo apareceu, entrou no Mercedes que partiu silencioso, mandei o táxi ficar na cola, pegou o caminho da Gávea, entrou na São Vicente, no fim da subida parou em frente a um edifício de quatro andares, dispensei o táxi com mais cinqüenta pratas, o motorista com sorriso largo falou, “Deus lhe pague!” e partiu. Entrei no edifício, parei em frente ao porteiro, “pra que apartamento subiu o cara que entrou há pouco?”, joguei cinqüenta pratas na mesa, “no 402”, respondeu sem levantar a cabeça, peguei o elevador, em frente ao 402 toquei a campainha, insisti, nenhuma resposta, bati com os punhos, uma fresta, empurrei, Anselmo se desequilibrou, entrei. – vou chamar a polícia! – calma, só vim conversar, por que não me apresenta ao seu amigo? – entra senhor, – falou um rapaz bem apessoado, pouco mais de vinte anos, – senta, uísque? – sim, – me acomodei numa poltrona. – seu nome, je t´en prie? – Alfredo, Monteverde e o seu ? – Johnny. – plaisir. – não começa com essa frescura de francês, sabe muito bem que não entendo, – falou Anselmo. Johnny riu, eu também. – Anselmo senta e deixa de fricote, – falei ainda rindo. Obedeceu, o rapaz voltou com três copos numa bandejinha, me ofereceu um , o outro colocou na mão do parceiro e se sentou no sofá ao lado de Anselmo, segurou a mão dele. – o que quer? – perguntou Anselmo. – quero saber o que os Fragoso têm na mão para ameaçar Mônica? – nada! – Johnny, me diga está feliz com o futuro casamento do teu amigo? – jamais de la vie! – então meu garoto, o convença para deixar a teimosia de lado. Johnny se virou pro lado do Anselmo e beijou o rosto dele e depois se dirigiu a mim. – não vai fazer mal a ele, vai? – nem passou pela minha mente, sou um cara pacato. Comecei a beber, acendi um cigarro, esperei os cochicho deles acabar, ouvi espaçadamente, mon cheri... mon amour... ne me quitte pas, até Jaques Brel entrou na jogada, acabei a bebida e os cochichos continuavam. – como é, minha gente? tá tarde e estou cansado. – un moment, – respondeu Johnny, Mais cinco minutos de cochichos, acendi outro cigarro, Anselmo se levantou, andou alguns passos pra acima e pra abaixo na sala, rosto indeciso, olhou pro Johnny que lhe sorria, parou à minha frente. – está bem, não quero a Mônica, detesto mulher e não vivo sem Johnny. – então desembucha! Sentou – se de novo ao lado de Johnny, seguraram as mãos de novo. – são hipotecas dos bens imóveis, certidões de nascimentos de dois filhos bastardos do Nogueira, promissórias ainda não resgatadas e... –...bom, chega! Johnny tem computador? - mais oui! – então querido, entra no computador de Anselmo e... – ...nem pensar! –...e tire copias desses documentos todos, tem meios de acessar, o VNC? – te proíbo!– gritou Anselmo. – querido, vem me ajudar. Johnny pegou a mão de Anselmo e sumiu num quarto. Dez minutos de espera, voltaram, Johnny trouxe um envelope tamanho ofício e me entregou. – é muito eficiente, talvez te contrato como auxiliar. O rapaz riu satisfeito. Anselmo aos gritos: – pára de se jogar pra cima desse troglodita! Levantei – me. – deixo os pombinhos e Johnny, te agradeço, quando precisar de alguma ajuda numa encrenca me chame, meu nome está na lista, Alfredo Montenegro as suas ordens, bonne nuit mes enfants. Saí sorrindo, todo amor incondicional me alegrava. 21 Mais um dia na minha vida de investigador, não totalmente típico, mas não tão atípico também, por que alguém curte ser um? ninguém saberia dizer, não é divertido e às vezes se leva porrada ou um tiro te acerta, talvez até mesmo vira defunto. Pensei muitas vezes largar o batente, já deixara de ser advogado, o quê mais eu teria pela frente? parei de me lamentar, afinal não precisava mais trabalhar, a grana no banco e independência. Mas o que era mais excitante de que ouvir a campainha tocar e você abrir a porta, e um rosto desconhecido com medo e desespero no olhar e aí um monte de problemas é jogado aos seus pés. Consegue – se algum dinheiro, não muito, mas às vezes a sorte te sorri, para mim ela riu. Acionei o player, coloquei Benny Goodman, selecionei Poor Buttefly, o sexteto, no meu computador varias interpretações, Frank Sinatra, Etta James, Andrew Sisters, meu velho que me introduziu ao jazz me dizia,”não há melhor jazz do que o das grandes orquestras da década de 50 , da época do radio, dos enormes salões de dança como o Savoy de Nova Iorque”, gamei logo, a batida 4 x 2 me embalava e com freqüência dançava solo e foi o que fiz naquele momento, os braços abraçando parceira invisível, meus passos leves, gentis, eu flutuava pela sala. – não dança comigo? – Mônica? como entrou? E eu não pare a dança. – deixou as chaves na portaria, esqueceu? – por que essa hora? meia noite, Aristides não dormiu contigo? Parei os rodopios, substituí o CD de Benny pelo do Ellington concerto ao vivo em Newport, escolhi a faixa Diminuendo and Crescendo, som super sincopado no ágil sax de Gonçales, aumentei o volume, não estava a fim de papo meloso nem de briga, recomecei a rodopiar, Mônica colocou meu braço esquerdo em torno da sua cintura, assumimos a posição clássica de dançarinos o jitter – bug, ela graciosa me acompanhava no tudo que eu inventava, a faixa era longa, oito minutos, caímos exaustos, no sofá, eu ensopado de suor, o player silenciou. – ele é pai do meu filho, – começou Mônica, – amigos de infância, Copacabana, Sta. Clara, namoramos, tínhamos dezessete anos, engravidei, minha mãe não me deixou fazer aborto, era religiosa, nós não tínhamos dinheiro, a família Ramos custeou tudo, exigiram que André morasse com eles. – você é cheia de surpresas ou de mentiras. Continuou como se não tivesse me ouvido. – ficaram com ele, cuidaram da saúde, educação, agora está estudando direito, é estagiário nos escritório dos Ramos, não me deixaram ser mãe, visitar ele, só via ele de longe sem ser percebida. Eu não sabia o que dizer. – casei e não falei nada ao Nogueira, morreu sem saber. Raiva se apossou de mim. – porra, parece roteiro de um filme dos anos trinta quando eu nem sabia ainda o que era cinema, Bette Davis na pior forma, o vilão quem seria? com certeza George Sanders, mas deixemos o cinema do lado, a realidade é bem pior, sua mãe desapareceu, você ficou lisa, caiu na vida, se prostituiu, foi morar num conjugado em Copacabana, conheceu outras coleguinhas, Aristides entrou na tua vida através delas, te engravidou, aquele papo de adolescente inocente que pegou barriga não cola mais, alias nunca colou, o velho Nogueira te foi apresentado por aquele filho da puta de Aristides, gamou por ti, casou com ele, morreu sem saber de nada, você ainda trepa com Aristides for old times sake, com certeza foi seu amante enquanto casado com Nogueira, continua prostituta. – não, não, nãooo! Choro convulsivo Ainda procuro o homem que resiste ao choro de uma mulher. A deixei acalmar - se, evitei a tentação de a abraçar, enxugar as lágrimas com beijos, acariciar seus cabelos. Chorava em silêncio. Busquei um lenço no quarto e o entreguei, usou, parou o choro, fechou os olhos, e recostou a cabeça no respaldar do sofá, depois de eu fumar um cigarro perguntei: – e o Aristides ano 2006? – prometeu me levar ao André, sempre adiando e... –...te comendo, né? – sim. Levantei – me e voltei com um meio copo de uísque. – beba! vai melhorar. Obedeceu. Terminada a bebida, a icei do sofá e a levei até a cama, era quatro da madrugada. – durma, quando acordar a gente conversa numa boa. Fui dormir no sofá. Acordei as seis da manhã, cansado, as ultimas vinte e quatro horas um pesadelo, tomei consciência do rebuliço que causei, não havia volta, Mônica me dava medo, mulher problemática, cada vez que a encontrava outro segredo revelado, eu não possuía mais o entusiasmo de outrora, minha mente vagou de novo, uma única palavra, entusiasmo e surgem lembranças, meu pai não tinha entusiasmos explícitos, nunca gritava goooool! mesmo quando jogava a seleção ou o seu Botafogo, era homem de paixões e ódios e não escondia seus sentimentos, odiava sacerdotes de qualquer religião, odiava seus superiores, odiava a burrice, a covardia, a mentira, a desonestidade, o extremismo, amava a mulher dele com paixão, adorava a cultura, livros, musica, cinema, pintura abstrata, não se considerava culto, mas quando surgia conversa onde cultura dominava e se mostrava muito entendido, amava seu Botafogo, adorava seus amigos, pouquíssimos, emotivo não raro chorava e não se envergonhava por isso, sua voz sempre naquele tom de barítono, quando era interrompida se calava, se afastava, uma vez me dissera: ”se te interrompem é porque não te prestam atenção”, seu rosto espelhava num instante o desagrado ou o prazer, minha mãe dizia: ”seja mais discreto!”, nunca mudou. Mônica apareceu. – refeita? – perguntei. – sim. Tomamos o café da manhã na cozinha, silenciosos, terminada a refeição frugal, voltamos pra sala. – vou embora, – falou Mônica. Frieza total. – fica com as chaves, – falei, – tenho duplicata. Saiu, fechou a porta com carinho, as chaves na bolsa. No player um MP3, musicas escolhidas a dedo, nove horas continuas, o sax de John Coltrane chorava Nancy With The Loughing Face, fechei os olhos, esforço inútil para reter lágrimas, meu pai sorria. 22 De uma coisa eu tinha certeza, nenhuma viajem até Marabá, a história da Guerrilha eu a conhecia bem, mais de trinta anos já passados, Marabá hoje outra cidade, longe das enchentes do Tocantins e do Itacaiúnas, vôo diário de Belém, boa rede hoteleira e infra-estrutura turística, meu pai estivera lá por volta de 1970, me contara que para ir do aeroporto até a cidade tinha que atravessar o Itacaiúnas de balsa, o hotel uma desgraça, enchente anual com o Tocantins subindo sete metros, minério na Serra dos Carajás, ponte rodo-ferroviaria sobre o Tocantins, cidade nova abrigada da enchente, prosperidade, nenhum vestígio de 1973, nenhum ex-soldado Altair, Marabá fora de cogitação, nada de me envolver em movimentos políticos do passado nem do presente, meu velho não gostava dos políticos, os tolerava apenas, ele me dizia;”somos políticos desde o primeiro dia, o choro do recém nascido é uma manifestação política, o homem é político até a morte, sempre faz uso dela, o pechinchar e política, a negociação de toda espécie é política, por vezes democrática, por vezes ditatorial, o mesmo individuo que esbravejava contra os militares era ditador na sua casa, no trabalho, até mesmo no futebol o era, é disciplina diziam quando interpelados”, ele afirmava que Platão em nada acrescentara para o bem estar da humanidade, segundo o meu velho os conceitos democráticos: Fraternidade, Igualdade, Solidariedade, foram derrubados pela Ganância, Desonestidade e Incompetência, a Condição Humana imutável desde o Homem de Neandertal, citava filósofos, enfiava Freud no meio, dizia, “pensamentos abstratos em nada acrescentam ao bem estar humano, criam mais duvidas e incertezas, a vida é curta, as guerras dizimam, não sabemos quando a Natureza ou o Homem nos fará desaparecer, somos os únicos responsáveis por nossos atos, nenhum poder divino nos guia”, o velho era fogo, falava uma vez e não repetia por isso ninguém o chamava de chato mesmo discordando. Afastei o pensamento do velho, me concentrei no problema atual, não tinha duvida de que Mônica era a chave do mistério, mas que mistério? por mais que pensava menos eu compendia, procura do pai? duvidava, chantagem dos Fragoso um fato, um filho André sob a guarda dos Ramos ainda a ser averiguado, mas a final o que era que ela queria e por que justo eu a ser procurado? talvez algo do passado, me senti inquieto, se eu acreditasse no impossível, em fantasmas eu diria que...levantei - me, tomei um café, acendi um cigarro, gênios do mal sempre tem uma maneira de reviver e aborrecer, nunca sossegam, Hitler derrotado, nazismo decepado, enforcado, morto em 1945, em 2006 recrudescendo, neonazismo, holocausto desmentido à sombra do huno, ali, acolá. Livrei - me de pensamentos desagradáveis e inúteis, as mentiras de Mônica mais do que comprovadas, coloquei o DVD Mo`and better Blues, dirigido por Spike Lee, uma história de amizade, amor e muito jazz, Denzel Washington e Wesley Snipes, e um conjunto, trompete, sax, piano, contrabaixo e bateria, na realidade é o conjunto de Branford Marsalis, ele no sax e Terrence Blanchard no trompete, o grande homenageado é John Coltrane, Of Love Supreme tocado em surdina, Miles Davis também não esquecido, o filho do personagem central batizado de Miles, Dee Dee Bridgewater emprestando a voz a interprete feminina, apaguei a luz, me ajeitei na poltrona, imagem boa, som perfeito. A porta abriu, ela entrou, se aproximou, não me movi, Mônica ficou de pé por instantes, depois se sentou no sofá, permaneceu calada, mentalmente a agradeci, no fim de uma hora, acendi a luz, recolhi o DVD, o recoloquei com cuidado no seu lugar na estante entre o Bill Evans e Charlie Mingus, olhei o relógio, onze da noite, me servi do uísque, ela me acompanhava com o olhar, levei um copo pra ela, sentei de volta na poltrona e acendi um cigarro. – o que devo fazer pra me livrar de você? – perguntei com carinho. Mônica me olhou como criança pedindo perdão. – são mais de onze da noite, – continuei, – não acha tarde para visita? – quero ser amada por você. – no sentido figurado ou...não tenho vocação de Werther, amar mulher de outrem, não quero que minha vida seja roubada. – adoro seu pau! quero sexo! Nova tática, o motivo? aguardei. - quero chupar você todo! Jogo terrível, incontrolável prazer do sexo. - à vontade. – vai sentar no meu rosto? - já estou lá! – respondi, tentei acender outro cigarro, desisti. – prefere tocar uma? – continuou ela, sorriso congelado no rosto, calafrio me percorreu. – talvez. – pensando em quem? – não em você. – conta uma fantasia. Cortar a conversa? não consegui. Mônica sentou no meu colo. – não tenho! – resmunguei. Meu avô era mulherengo, me fizera seu confidente aos meus dezesseis anos, contava sua aventuras, sempre tendo cuidado em destacar que tudo acontecera quando solteiro, eu fingia acreditar, se era mentira não importava, parecia sincero, transformava detalhes sórdidos em poemas, no rosto dele as delicias do sexo revividas, “nunca diga não a uma mulher, mulher desprezada é perigosa, satisfaça – a, não escolha demais, todas têm algo especial, fazendo amor com elas descobrirá delicias impensadas”, e ele me olhava querendo descobrir se eu entendia, “entre quatro paredes vale tudo, tudo mesmo”, calava, o rosto embevecido pelas lembranças safadas, acabava por cochilar, durante a noite eu tinha sonhos, wet dreams, sonhos molhados, acordava inundado em esperma. Mônica se movimentou, colada em cima de mim, a calcinha como por milagre apareceu na mão dela. – estranhos, fazem fila, os sirvo como uma cadela louca por porra, um em cada buraco, gozam na minha boca, no meu cu, nos pentelhos da minha boceta, lambo tudo, sou uma vagabunda, uma porca. Rasgou minha camiseta. – sou sua porca, sua puta. – foi bom? –, perguntou ela debochada. – não! foi minha pior masturbação! – hipócrita, gozou! – fragilidade masculina. – limpa seu rosto com minha calcinha úmida! se delicie com meu perfume vaginal! Jogou – a na minha cara, se virou, se levantou, não a deixei sair. – não me importo com você, não me importo com ninguém, mas é aqui onde moro, e vivo, é meu lar onde guardo minhas lembranças, não possuo muito, alguns livros, CD´s, som,TV, álbum de fotos e velhas cartas, nenhuma puta vai me fazer de palhaço aqui, no meu santuário, é bom que saiba e agora suma! A empurrei pra fora, bati a porta. “Avô o quê foi que descobri fazendo sexo com ela?” , ”descobriu que o homem é fraco diante mulher, que quanto maior a fraqueza melhor é o prazer” , “mas ela?” , “ela? é mulher para nunca ser desprezada, se cuide!”. Despi – me, a bermuda no chão, desfalecida, a camiseta rasgada junto à calcinha inerte, no banheiro escovei furioso os dentes, bochechei com Cepacol, entrei debaixo do chuveiro. 23 Acordei aborrecido, o domínio dela quase acabando com minha auto-estima, “vô, você é um filho da puta!”, xinguei o velho por me ter contaminado do que ele chamava de fraqueza masculina, coloquei o CD de Benny Goodman, Sing,Sing, Sing para me animar, o swing agitado me agitou acima do razoável, espatifei o copo de bebida da véspera usado por ela contra a parede, toquei fogo na calcinha, joguei a bermuda e a camiseta rasgada no lixo, ofegante engoli o uísque quente e dormido do meu copo, “o que está feito não pode ser desfeito”, ouvi meu pai, ”vá a luta, não adianta chorar o leite derramado” , “não foi leite, foi meu precioso esperma!”, arremessei meu copo contra outra parede. Soprava vento quente vindo do Norte, trazia calor, senti secura na garganta, aquele vento me deixava inquieto, me enervava, na noite que ele soprava muitos enlouqueciam, brigas sangrentas se multiplicavam, até dóceis esposas sentiam vontade de afiar facas e degolar os maridos, flores coloridas, folhas verdes murchavam queimadas por esse vento, quem leu Amok de Stephan Zweig sabe do que falo, eu esperava o pior, mas o que era pior do que estar enrabichado por uma mulher que era de todos? RENT A CAR deixara o ASTRA estacionado na Gomes Carneiro, às 20 horas em ponto parti em direção ao Leblon, parei em frente ao edifício da Mônica, liguei o ar condicionado, Radio MEC, a Quinta de Beethoven me enchendo o saco, esperei. A reconheci pela silhueta, pelo andar. Usava peruca, loura, jeans stretch realçavam as curvas, camiseta salientava os seios, sandália salto 10 vulgarizavam o andar. Parou na esquina, um táxi a esperava, ela entrou, eu acionei o arranque, manobrei, segui o amarelo. Orla, túnel, Flamengo, Catete, o táxi parou na Correa Dutra, ela saltou, estacionei o ASTRA ao longo do meio fio, a segui, andava apressada como se atrasada para um encontro, parou em frente à uma casa antiga, em mau estado, falou algo ao negro com pinta de segurança, entrou. Aproximei – me. – tem que pagar pra entrar, – falou o negão. – quanto? – duzentos! Tirei três notas do bolso, as balancei perto da cara dele. – conhece a dona que acabou de entrar? Espalmou o dinheiro. – vem uma vez por semana. – fazer o quê? – não sei. Outra nota de cem. – fazer o quê? –, repeti. Abriu a porta. – entra e veja! –, falou rindo. Fácil demais, pensei, e era, um sujeito com cara de gringo impediu a passagem. – que querrr? –, sotaque do Leste Europeu. O sujeito era grande, a camisa apertada realçava a musculatura, o pescoço da largura da cabeça. – a mulher loura que entrou. – porrr que? Meu humor não era dos melhores e eu detestava caras do Leste Europeu. – é tua mama, compreende? – engrrraçado, muitooo engrrraçado, hahaha! tem que pagarrr mais. No passado eu já trocara porrada com caras grandes, eram lentos e eu era ligeiro, era, achei mais fácil tirar a Glock da cintura e mandar bala no pé dele, ele desabou gritando, pulei por cima do corpanzil, segui pelo corredor mal iluminado, subi um lance de escadas, não sabia o que procurar, o instinto me guiava, passei por portas enfileiradas, abri a primeira, casal de homens engatado, outra porta, outros putos se contorcendo, o mesmo se repetindo, porta após porta, mais escada, claridade vindo do fundo, abobada de vidro, luz vindo de baixo, me aproximei, me debrucei por cima de um gradil, vi Mônica despida e deitada numa esteira que tomava todo espaço, dois caras se fartando dela, ela os guiava, ora dentro dela, ora chupando, paroxismo diabólico, não me surpreendi como se achasse aquilo normal pra ela, pantomima seqüência da véspera, assisti ao revezamento sexual, eu congelado, outros quatro se masturbando, antes de voltar por onde vim, dei uma porrada em cada um, passando pelas portas atirei, gritinhos acompanhavam cada tiro, o gringão me esperava com o pé enfaixado e uma arma na mão. – tem que pagar, money, dólar, euro, não real, real porcaria. Não dei a mínima e atirei no outro pé, caiu berrando: ”puta que parrriu!”. Abri a porta que dava pra rua, coloquei outro pente na automática. – como é? gostou? –, perguntou o negão rindo. – mais se fosse tua mãe! Fez menção de agredir, mostrei minha arma na cintura, acalmou, eu esperei. Minutos mais tarde ela apareceu. – sabia que era você, Ivan me falou, tadinho, tá machucado, você é um bruto -, falou rindo. Arranquei a peruca loura da cabeça dela, a joguei na sarjeta, o cabelo preso a fez aparecer como um pinto depenado, de repente a achei muito feia, segurei seu pescoço pela nuca, sem delicadeza. – tá machucando! Apertei mais um pouco, a arrastei até o ASTRA, abri a porta do carro e a joguei dentro, acionei o remoto, a porta trancou. Guiei sem pressa, ela tentou falar, levou um tapa, permanecemos mudos durante o trajeto até o Leblon, estacionei o carro, a arranquei de dentro presa pela nuca, entramos no edifício, joguei uma nota de cinqüenta pro porteiro da noite, mostrei a arma de relance: “esquece o que viu!”, entramos no elevador. – abre! Obedeceu, a arremessei pra dentro, caiu sobre o mármore. Fui até o bar, me servi do Ballantine`s, levei meu copo até uma poltrona e acendi um cigarro, ela continuava no chão, esperei bebendo e fumando, sem raiva, sem ódio, sem nada, entediado, pensara que deixara pra trás essa nojeira toda, esse lixo, essa porcaria embotada na alma humana. Acabei a bebida, apaguei o cigarro, coloquei a Glock no colo, fechei os olhos. Mônica falava ao telefone: – tem que ser agora, ouviu? tem que ser agora! Do outro lado da linha Aristides, com certeza, segurei firme a Glock, voltei ao sono sem me preocupar. ... o carro estaciona, o homem sai, é noite, bem tarde, rua deserta, as luzes vindo das janelas se refletem sobre o asfalto molhado, ele pára, hesita, luz néon ilumina um bar, se aproxima, a luz forma um quadro, no meio vê a mulher que sorri, ela veste um mantô de pele, pose sedutora, pernas cruzadas com elegância joelhos a mostra, cabeça ligeiramente inclinada para o lado, cabelos pretos, lábios entreabertos, parece sorrir para o estranho, ele entra, a luz do interior morna, senta, calado, nenhum movimento, as mãos pousadas sobre os joelhos, a mulher se aproxima, senta no tamborete ao lado do homem. – boa noite! –, fala mansa perto do rosto dele. – quanto cobra? –, pergunta ele. – quatrocentos! O homem parece ter duvidas. – te levo para uma salinha aqui perto, pode fazer o que quiser comigo. – não, hoje não, estou cansado. – então precisa pedir um champanhe. – quanto é? – quatrocentos! A bebida é servida, ninguém bebe. O rosto inexpressivo, mal barbeado, não parece ser tristeza, talvez melancolia, no espelho sua imagem, calvo, o pouco cabelo quase raspado, terno escuro, camisa social sem gravata, ao seu lado a mulher bela e elegante sorri. – não vai beber? –, pergunta a mulher. Não responde. O que será que pensa? no passado? relação infeliz ou apenas tédio? Ela parece se divertir, olhar frio de mulher da noite, conhece muitos homens, gosta da profissão, missionária do sexo. – quantos te procuram por dia? –, pergunta ele. – tanto quanto aparecem. – te pago cinco mil! – não aceito sadismo. – não precisa ter medo. Ele pega no copo com a bebida. – ganhei na loteria hoje, – fala. – quanto? – quatro milhões. – verdade? – sim, te pago cinco mil por dia até o dinheiro acabar. – bebeu? para fazer o quê? – morar comigo, ser minha companheira. A mulher hesita, a tentação é forte. – está certo, mas já te falei que... – ...será tratada como uma esposa. Ela sorri satisfeita. Ele paga a despesa, saem, caminham até o carro, param. – vamos comer algo, num restaurante, – fala ela. – não, estou cansado e um pouco enjoado. – tem que me dar dinheiro, um adiantamento. Ele retira do bolso um maço de notas, o entrega, a mulher o coloca na bolsa. Ele abre a porta do carona, ela entra e sai logo em seguida. – terá que me tratar bem. – pode deixar. Entra de novo, sai de novo. – tem ser carinhoso, nada de grosseria. – sim. Ele fecha a porta, pega seu lugar de motorista e arranca com o carro. O que será que pensam? percebe – se que não é um homem acostumado a lidar com mulheres, com certeza é solteiro, solitário, emprego de pequeno burocrata, ela ao contrário, conhece homens demais, na vida dela não há espaço para amor, é independente, vive um dia após o outro. Ela dá um endereço, dez minutos depois o carro pára em frente a um pequeno edifício, rua arborizada, calma, saem do carro, sobem escadas, param no primeiro andar, ela destranca a porta e entram, ele senta numa cadeira perto de uma mesa, ela vai ao quarto, pega duas malas, coloca vestidos, lingerie, sapatos e retorna à sala, ele se levanta, apanha as malas, saem, descem as escadas, ele na frente, titubeia, perde o equilíbrio, as malas caem, senta no degrau, encosta a cabeça na parede. – o que tem? - pergunta ela. – nada, é passageiro. – vou ligar pro medico, é um amigo. – não precisa. O medico tira a pressão, “16 por 9, é alta, sofre do coração?”, coloca o estetoscópio de volta na maleta, ”é cardíaco, seu pulso está acelerado”, o homem responde irritado, “olha para ela, você não ficaria com taquicardia?”, o médico pega a maleta e sai. O homem veste a camisa, o paletó, pega as malas, descem as escadas sem problemas, ele coloca as malas no porta-malas, volta ao volante. Entram no apartamento dele, uma mansarda, sóbria, nenhum tapete, flores nos vasos, cortinas, ambiente agradável, ela se sente segura, passeia pelo apartamento, de fora se ouve uma sirene, some na noite, os saltos dos sapatos dela sobre o chão de tabuas corridas ressoa no silencio, ela aperta contra o corpo o mantô, passa por um vaso com flores, se abaixa e as cheira, vê a cama com lençol branco e limpo, dois travesseiros colocados de modo ordenado, um ao lado do outro, em linha, ao lado da cama uma mesinha, acende o abajur, um vaso longo com uma rosa branca, apanha a rosa e caminha até ele cheirando a flor, lhe entrega, o abraça, acaricia sua nuca, se afasta e se senta no sofá, o olha com atenção e sorri. – já me sinto em casa, – fala ela ainda sorrindo De pé ele a olha inseguro, encabulado. – se não gostou posso comprar um novo, maior. – não comece a gastar o dinheiro, por que não coloca as malas no chão e senta? Ele senta numa poltrona em frente ao sofá. - eu sou Daniela, e você? – Michel!... Abri os olhos, Aristides a minha frente, pernas afastadas ligeiramente inclinado na minha direção, a mão direita dele apertando meu braço esquerdo, chutei sem piedade com o calcanhar o joelho esquerdo dele, caiu gemendo. – filho da puta! quebrou minha perna! Levantei – me, recoloquei a arma na cintura. – ninguém me toca sem permissão e deixa de frescura, gelo durante algumas horas resolve. Mônica nos olhava, parecia se divertir, me aproximei, a esbofeteei. – deixa de ser safada! – falei enquanto acendia mais um cigarro. Aristides tentou a se levantar apoiando os braços na poltrona, se jogou nela gemendo, a perna machucada esticada, a outra encolhida. – afinal o quê quer? – perguntou. – essa é boa, – falei soprando fumaça no rosto da mulher, – a pergunta é por que foi que ela te chamou? – é meu homem, vai dar um jeito! – gritou ela. – como? não tem cara de quem daria jeito nem num resfriado. - ele se desfaz da casa da Correia Dutra. – muito engraçado, gente como vocês nunca se sente culpada, se alguém é roubado num jogo de azar, ele deve deixar de jogar, se ele se embebeda, bebida deve ser proibida, se ele mata alguém num acidente, carros não devem ser fabricados, se dão flagrante nele com uma menor num motel, derrubem o motel, se cai da escada prédios não devem ser mais construídos, se o marido flagra a mulher trepando com seu melhor amigo no sofá, basta remover o móvel, se Mônica quer deixar de ser puta basta mudar de endereço. – afinal, o quê quer? – falou Aristides. Joguei o cigarro no chão, o amassei com a ponta do sapato. – quem dá mais? – perguntei. Aristides pigarreou, se moveu na poltrona. – cem mil! – cem mil o quê? – perguntei. – reais. – euros! – tá maluco? – nem um pouco. Mônica e Aristides se entreolharam. – tá bem,– falou ele. – posso saber a que devo tanta generosidade? – pra deixar ela em paz, – falou Aristides. – deixaria até de graça, quem não me deixa é ela, não é doçura? – passa pelo escritório amanhã depois do almoço, às duas horas, cheque ao portador. – feito! – falei. – é chantagista mesmo, – sibilou Mônica. Não me dei o trabalho de retrucar, mas fiz uma pergunta: – como vai o André? – não é da sua conta! – gritou Mônica. – quem é André? – perguntou Aristides. - é o filho de uma puta, – respondi de bom humor. Caminhei até a porta, antes de abrir me virei e fiz outra pergunta: – os caras usavam camisinha? – filho da puta! Saí rindo. O vento Sul não soprava mais, o Sudoeste assumira, chuva a caminho, ia lavar o lixo da rua, o lixo que deixei de onde saí ia demorar algum tempo para ser afastado. 24 ...filho, você tem a vocação da autodestruição, de doutor advogado virou um João Ninguém, que diabos de profissão é essa que precisa andar armado, machucar seus semelhantes e cobiçar as mulheres de outros? lembre – se que os judeus desaconselham a violência, sim, eu sei, agora lutam, precisam para que não desapareça um país, esqueceu dos temores do seu avô?, eu sei, ele era bem velho quando resmungava nomes que você não conhecia, graças a Deus, Chelmo, nazistas, Treblinka, extermínio, gueto de Varsóvia, Auschwitz, mortes e mais mortes, cadáveres empilhados, ossos calcinados, um rio de lagrimas, tanta dor, crianças mortas no berço, no jardim de infância, nos lares, na rua, até no cemitério, e os livros queimados? livros são imortais, pode achar que queimados viram cinza, mas conseguem se esconder e submergir anônimos na escuridão poeirenta de fileiras atopetadas, sob pilhas e pilhas de revistas e jornais, ou achar um esconderijo atrás de outros livros, livros representam vida, e o livro dos livros é o Torá, sinônimo de ciência, amor a Deus, sem ela a vida não tem sentido nem valor, filho escuta... O sonho me lembrou do que eu não gostava, de ser chamado atenção, de receber conselhos antagônicos aos meus desejos, gestos de admoestação, aquela mão aberta na minha direção balançando de um lado para o outro, ameaça de castigo futuro, castigo era castigo, o Deus raivoso do Velho Testamento com olhar faiscante e relâmpago saindo do seu punho fechado. Desci na Rio Branco esquina com a Ouvidor, dez minutos antes das duas, caminhei até a esquina da Travessa do Ouvidor, entrei no edifício, desci no quinto, RAMOS ADVOGADOS, empurrei o blindex, por que será que todos os escritórios de advocacia eram iguais? luxo metálico, ar condicionado que gelava até a alma, recepcionista jovens elegantes e louras, sorrisos impessoais parecendo animais domesticados, três seguranças de terno escuro. Parei no balcão, “sim senhor?” , “doutor Aristides!” , “quem deseja?” , “doutor Monteverde!” , “um momento por favor!”... “doutor Aristides está em reunião, não pode atender, não quer sentar?” . “não quero e nem vou diga a quem atender que se não me receber logo vou me mandar” , “tenha paciência tenho ordem para...,” , “não tenho paciência com louras burras!” , “não precisa se grosseiro” , “anda logo antes que eu fique nervoso”, um segurança se aproximou 1,90, mais de 100 quilos, eu tava safado da vida, meu velho que se dane, nem deixei o negro abrir a boca e acertei o nariz dele, confirmei minha teoria de que segurança era enfeite e que tamanho não era documento, deixei o cara ali segurando nariz pingando sangue, os outros dois fingiam não ver, empurrei a segunda porta blindex, entrei num corredor, abri porta por porta, montes de escravos com gravata em frente ao computador, nem se deram o trabalho de levantar a cabeça, no fundo corredor uma porta imponente, “não pode entrar!” , “posso sim!” , “senhor...” , “senhor o cacete!”, chutei a porta na altura da maçaneta, as duas folhas escancararam, na mesa de reunião meia dúzia de múmias, Aristides se levantou, “tá maluco?” , “você é que é, são duas e quinze, quero minha grana!” , um velho se levantou, figurino perfeito de um senador americano, do Norte, terno bem talhado, altura mediana, cabelos brancos, saiu de trás da mesa, veio ao meu encontro, “sou Paulo Ramos o senhor é?” , “pergunte ao bobo do seu filho!” , “por favor vamos a minha sala, Aristides venha!”, fila indiana, o senador, eu, Aristides, entramos numa sala imensa, pensem no absurdo e saberão do que falo, numa das paredes a cabeça de uma águia esculpida num retângulo de madeira, das garras surgiam quatro flechas sob as quais placas de bronze, nomes gravados nela, o nome Paulo Ramos numa placa abaixo das outras, como se o querido chefe fosse muito modesto e não quisesse mostrar ser o maioral. O senador sentou no trono, Aristides um mero enfeite num canto, eu não dei prazer ao velho de ficar em pé na frente dele, me joguei numa poltrona e acendi um cigarro. – gostou? – perguntou Paulo Ramos. – é um tanto estranho, – respondi só pra ser educado. – é peça única que arrematei num leilão em Houston, pertencia a Angus Wynne o homem que descobriu petróleo no Texas. – e trouxe também o Cadillac conversível cor de rosa do rei do gado de lá com chifres de boi no capô? Não resistira à ironia, mas o efeito não foi aquele que esperava. – sim, como adivinhou? o guardo na garagem de casa, minha mulher o usa para passear pela redondeza. – pai, ela está debochando! – gritou Aristides. – em absoluto, o símbolo do poder tem que ser alardeado, – falei compenetrado. – Aristides, você nunca entendeu nada, esse homem ali possui conhecimento sobre a alma humana. Deixei por isso mesmo, o doutor Paulo Ramos com certeza não andava bem da cabeça. – se incomoda se eu fumar? – perguntei compenetrado. – pode, senhor Montenegro, gosto da fumaça entrando pelas narinas, senta mais perto. Escolhi uma cadeira com assento de veludo, acendi o cigarro, inalei e soprei a fumaça na direção dele, ele aspirou, fungou como um cão farejando toca de uma paca, tênue sorriso apareceu no canto dos seus lábios. Pareceu - me um homem solitário, homens solitários ou falam demais ou ficam calados, esperei. Ele abriu a gaveta e retirou um cinzeiro. – não me deixam mais fumar, – falou. Seu olhar tomou o jeito de quem tinha saudade de um amor não esquecido. – obrigado pela fumaça, mas o senhor se comportou como marginal. – vamos nos ofender mutuamente ou vamos ser homens por instantes? –, falei com calma exagerada. O senador chamou Aristides que sentou numa poltrona ao lado da mesa, inclinou a cabeça, os dois cochichando, não me abalei, acendi outro cigarro, a conferência terminou, Aristides pegou num telefone, falou algo, recolocou o telefone no lugar, uma das garotas entrou e entregou algo ao velho, ele agradeceu, a garota saiu na ponta dos pés, Aristides se aproximou e me entregou o cheque, o examinei ligeiramente, me levantei, parei em frente ao senador e rasguei o cheque em dois pedaços simétricos e os coloquei com delicadeza na mesa imperial, me virei, caminhei em direção a porta. – um instante senhor Monteverde, por favor queira ficar mais um pouco. Era o que esperava, voltei à poltrona. – vou mandar vir um café. – perfeito assim seremos parceiros na fumaça. – que tal se acompanhamos com bebida? - melhor ainda. – o quê? – o senhor escolhe, o acompanho. Aristides caminhou até o bar no fundo da sala, movimentou copos e garrafas, voltou com três copos numa bandeja, colocou um na mesa do velho, me levantei e apanhei o meu, sorrindo para ele, eu não gostava de ver homem adulto ser humilhado, voltei à poltrona, molhei os lábios, vinho do Porto. – senhor Monteverde por que rasgou o cheque, a quantia não o agradou? – não preciso de dinheiro, o senhor sabe o motivo que levou seu filho a me oferecer tantos reais? com certeza sabe, cochicharam tanto tempo que dava para ver um filme. Paulo Ramos sorriu. – mas parece que não é muito ético, conheço seu passado, tenho meios e os usei. – é uma questão de opinião e opinião não se discute, mas não respondeu a minha pergunta. – nossa conversa não é para ser compartilhado com o senhor. Eu sorri, a resposta do velho era uma confissão, mudei de tática. – me diga, quanto custou aquele o Kandinski ali e por que não tem um de Koonig e em especial um Pollok? – bastante oneroso adquirir um Pollok, o senhor gosta de pintura? – bastante, não sou entendido o suficiente, tenho minhas predileções como Modigliani, Chagall, adoro Pollock, tenho afiches dos quadros dele, um original deve valer dezenas de milhões de dólares, conhece Gustav Klimt, vienense, século dezenove, sensacional, um quadro dele, o Retrato de Adele Bloch – Bauer foi comprado por e 135 milhões de dólares há pouco dias. Passei pelos Renascentistas Italianos Caravaggio, Donattelo, pelo holandês Van Gogh, pelos espanhóis Goya, Dali, despejei cultura que nem sabia ter. Aristides esquecido permanecia calado enquanto eu conversava com o velho, eu observava o filho do canto do olho, estava com ciúme e com raiva. O papo correu solto por quase uma hora. Levantei – me, caminhei em direção da porta. – senhor Monteverde, o senhor me parece um tanto contraditório, usa de brutalidade mas tem cultura, muito interessante, entretanto ainda não entendi o motivo da sua vinda já que o dinheiro não o interessou. – acho que sabe, seu filho com certeza o esclareceu, mas atingi meu objetivo. – e qual seria? – conhecer o patriarca, espero o rever em breve. Perto da porta parei e me virei. – doutor Ramos, me diga, como vai o André? - muito bem, é um rapaz brilhante. – pai!– gritou Aristides. – obrigado e até qualquer dia. Abri a porta e saí. 25 Não tinha planos a seguir, os faço e nunca os sigo, meu instinto me leva pra onde ele queria, sou como um escritor, começa um romance, imagina um roteiro, levado por caminhos diferentes os personagens mudam de importância, o fim é imprevisível. Os FRAGOSO, como eliminar ou anular a chantagem à Mônica, não tinha a mínima idéia, tentar destruir os documentos seria bobagem, com certeza estariam em algum cofre num banco, haveria duplicatas escondidos no labirinto informático, eu teria que conseguir documento assinado pelos FRAGOSO abrindo mão de qualquer ação judicial, criminal ou civil contra Mônica Nogueira, teria que utilizar o Johnny, a idéia não me agradava, ele era o ponto vulnerável na armadura familiar dos FRAGOSO, bom como dizem por aí, quem anda na chuva acaba molhado, tinha que ser um tiro de misericórdia, se for mal sucedido não teria repeteco, tentei me concentrar, fechei os olhos. ...- como está seu coração? – pergunta Daniela. – estou bem, meu coração sempre foi meu ponto fraco, no colégio nunca me dispensaram da educação física, – responde Michel um pouco mais à vontade. – não se preocupe, vamos viver tranqüilos. – tranqüilos como? – como agora, descanse, relaxe na poltrona. Michel não consegue, permanece com o corpo ligeiramente inclinado para frente quase sentado na beira da poltrona olhar fixo na mulher, Daniela ainda com pernas cruzadas com elegância, mantô ligeiramente entreaberto, braços longos repousam no respaldo do móvel, o olha, uma cobra hipnotizando sua presa, em seguida leva o braço ao mantô, o abre mais um pouco. – fecha os olhos, – ela fala. – por que? - não quero me arriscar, vou me livrar do mantô, feche os olhos. Ele obedece, ela começa com movimentos lentos, o vestido branco aparece moldando os seios, ele abre os olhos, ela repõe rápido o mantô. – por que abriu os olhos? quer que eu vá? – não! – sou sua mulher ou não? – sim! – então fecha os olhos. Movimentos lânguidos, ela começa com a mão, dedos longos se movem como pequenas cobras, o mantô cai sobre o sofá, o vestido branco reaparece cobrindo o esplendor sensual de Daniela, Michel olha guloso, não tem coragem de se movimentar, falar, move a cabeço lento, quase imperceptível. – te amo! – ele fala. – é normal, – responde ela, – todos os homens me amam, nasci para ser amada, veja, vou me movimentar um pouco. Daniela ainda sentada movimenta graciosamente os ombros, o busto, acaricia as pernas, coloca as mãos sobre a nuca debaixo dos cabelos, movimenta a cabeça, os dedos despenteiam os cabelos, percebe- se no rosto de Michel a transformação, seu desejo parece fluir pelos olhos, boca entreaberta. – tudo bem? – pergunta Daniela. – preciso me acostumar. O olhar de Michel a cobre com visível prazer. – temos muito tempo, – sorri Daniela, – não se preocupe, eu estou pronta, a cama está pronta, tudo está como deve estar, olha, vou me movimentar de novo. Recomeça. – pára! – e por que devo parar? estou com o meu marido, não é? é meu dever de mulher. Ele pula da poltrona, se arremessa na direção dela, tenta beijá – la, Daniela o impede. - acalme – se. - por que? - é preciso que a gente se conheça melhor. – como? – assim! Encosta os lábios nos dele, não o beija, repete os movimentos duas, três, quatro vezes, em seguida eles se beijam com fúria, longos e sofridos beijos, mordiscam os lábios, posicionam a boca de varias maneiras, ela se afasta um pouco, o olha intensa. – o quê foi? não gostou? – pergunta Michel. Ela acaricia a cabeça calva varias vezes. – não esperava ser assim. – como? o quê aconteceu? Ela continua com o mesmo olhar. – vem, vamos nos deitar. No quarto ela tira o vestido devagar, começa pelos ombros, segue pelos quadris, o vestido cai no chão, está nua, Michel olha, ela se deita, se estica sem perder as curvas, os seios apontam para o teto, Michel continua a olhar, se aproxima lento, se ajoelha, Daniela acaricia seu rosto, continua acariciando, ele se distende aos poucos, ela segura a cabeça dele, com as duas mãos a aproxima, ele coloca o rosto sobre o ventre de Daniela... 26 Abri os olhos, já noite, nove horas, me vesti, resolvera visitar o Johnny, ele me ouvirá e decidirá, talvez resolveria, não havia outro caminho, eu cansara de bancar o macho man, o rapaz era de boa índole, eu apostava tudo no amor dele pelo Anselmo e do Anselmo por ele, se eu fracassasse a Mônica teria que lidar com os problemas. Situações desagradáveis tendem a se desmanchar ao longo do tempo, tem que engolir o remédio e esperar o efeito. Trinta minutos mais tarde toquei o interfone, Johnny atendeu, me identifiquei, a porta zuniu, entrei, me esperava na porta, me abraçou, eu idem, entramos, me fez sentar ao lado dele no sofá, me perguntou o que eu queria, expus o problema, não me interrompeu, minutos a mais e terminei, vi lágrimas nos olhos dele, era sensível demais, às vezes eles são assim, outras vezes te retalham com uma navalha, me perguntou como eu queria que me ajudasse, expliquei que eu precisava de um documento registrado em cartório onde os FRAGOSO declaravam que ao entregarem os originais dos documentos que incriminavam a senhora Mônica Nogueira pelo passado do Moacir Nogueira, já falecido, cessariam toda e qualquer espécie de ação criminal ou civil contra os herdeiros do espolio Moacir Nogueira, como também se obrigavam a defender graciosamente a senhora Mônica Nogueira caso aconteça alguma ação por parte da União, Johnny me falou que não podia prometer nada, mas que se empenharia, o agradeci, deixei com ele meu telefone e endereço, nos despedimos com abraço, cheguei em casa depois das onze tranqüilo e seguro, o instinto me dizia que eu agira bem. Durante meu sono o velho apareceu: ”muito bem filho, nada de violência, Deus o ajudará”. 27 Passaram – se três dias, propositalmente me afastando de todo e qualquer ação, achava mesmo que estenderia esse afastamento para sempre, não tinha mais élan para continuar numa profissão que já abandonara, mas o destino bateu na porta, John Garfield e Lana Turner já falecidos, a versão nova com Jack Nicholson e Jéssica Lange um fraco remake colorido do filme preto e branco, tragédia envolvendo morte e amor tem que ser filmada em preto e branco. Esperava ansioso pelo filme remasterizado por Robert Aldrich, Kiss me Deadly, filme de 1955, film noir com Ralph Meeker interpretando o detetive Mike Hammer, Mickey Spillane o autor do personagem, Spillane entrando pelo caminho de Dashiel Hammett e Raymond Chandler com o herói bastante mais violento tendo como secretária uma loura burra, a Velda. – vai ficar ainda muito tempo aí olhando pro vazio? Mônica entrara sem eu perceber, sentada no sofá, pernas cruzadas com elegância, linda de morrer, minha relação com ela muito estranha, não conseguia me entender, atração e repudio ao mesmo tempo com certa vantagem da atração, reconhecia isso como também sabia que essa vantagem acabaria por engolir o repudio, eu não esperava rever ela, odiava estar em desvantagem, a imagem da suruba não me abandonava. – sofreu algum trauma na infância pra se comportar como prostituta? – perguntei com esperança dela se lembrar do relato feito dias atrás. Não reagiu da forma que eu esperava. – faço por prazer. Acendi meu primeiro cigarro do dia. – quero minhas chaves de volta. Retirou – as da bolsa, as balançou a minha frente, sorrindo, e as recolocou na bolsa. – entendi, – falei sem entusiasmo. Levantou – se e beijou meu rosto, voltou pro sofá e cruzou as pernas. - interpretei um papel desagradável, te peço desculpas. – por que as desculpas? – você sempre me faz sentir culpada. Não me senti disposto a um papo cabeça. – soube que invadiu o escritório dos Ramos, Aristides está danado, você deixou seu carimbo no pai dele, – continuou. – soube como? ele te contou na cama? você não sai da cama, devia aproveitar e escrever um livro como Marcel Proust, ele escrevia deitado. – quem é o tal de Proust? – foi um escritor francês, um profundo conhecedor dos degenerados, não tem como ter ouvido dele. – tem certeza? venha na cama comigo que te mostro. Ela sempre com resposta na ponta da língua, como não gostar dela? – te amo, me ama também? Parecia sincera, apenas parecia. – me faz lembrar daquele fumante que quer largar o vicio, jogo maço de cigarros fora e no meio da noite se levanta e cata o maço no lixo, - falei. O telefone tocou, me levantei e atendi, era Johnny, estava eufórico, me contou que o quê eu queria estava com ele e que mandou seu mordomo me entregar, perguntei como conseguira, me disse que ameaçou abandonar Anselmo, que este ficou doido chorando como criança e que falara com o pai dizendo que para que abandonasse seu amor teria uma condição, era aquilo que eu pedira, mais que depressa a família o atendeu, Anselmo lhe entregara tudo e se mudara para o apartamento da Gávea e viveria com ele pelo resto da vida, o agradeci, desejei toda felicidade do mundo junto ao seu companheiro, nos despedimos com abraços verbais efusivos, coloquei o aparelho no gancho, permaneci parado por instantes. – se foi mulher eu te mato! Voltei pra poltrona. – um amigo, resolveu um problema. – foi muito efusivo no agradecimento e no abraço. A campainha tocou, me levantei e abri a porta, um senhor vestido com apuro me entregou um envelope pardo, pedi para que aguardasse, coloquei o envelope na estante, peguei meu talão de cheques, o preenchi com um valor de cinco números, apanhei um cartão de visitas, um dos últimos cinco que ainda me restavam, escrevi: “meu presente de casamento”, assinei Alfredo, coloquei tudo num envelope branco poeirento, o entreguei ao homem em posição de sentido, o agradeci, ele se virou sobre os calcanhares, entrou no elevador. – está muito atarefado hoje, vou embora! – falou Mônica quase de mau humor. Peguei o envelope e o entreguei. – leva contigo, é teu! Abriu, retirou a papelada, leu, recolocou tudo de volta. – obrigada! Segurou minha mão. – vamos! Começou um striptease, me diverti sem sorrir, fiquei com tesão sem ter ereção, senti asco sem ter enjôo, nua mostrou seu esplendor. – excitação às vezes é emoção impura do ponto de vista estético, – falei, – não faço pouco do sexo, ele é necessário e não precisa ser sujo, mas tem que ser absorvido como um licor, gota por gota, não ser engolido como uma cerveja de botequim. Vestiu – se, antes de sair me olhou, lagrimas escorriam pelo seu rosto. Senti - me impotente diante da tristeza dela, fiquei cimentado na poltrona. Saiu na ponta dos pés, a porta fechou devagar, muito devagar. Dizem que o desejo envelhece o homem e mantém jovem a mulher, falam muitas besteiras por aí. Senti - me muito velho, muito cansado. 28 ...Michel acorda, Daniela não está ao seu lado,ansioso veste as calças, ela está na cozinha, faz o café. – acordou cedo. - faço o café para o meu homem, ele vai trabalhar. Ele volta ao quarto, se veste, a mesma roupa da véspera, volta à cozinha, ela se aproxima, arruma o colarinho da camisa. – o que faço para o jantar? gosta de comida italiana? – sim. – gosta de ombros italianos? Descobre os ombros. - gosta de seios italianos? O peignoir desce até cintura. – gosta dos meus? – sim. – por que? – são belos. Ela acaricia o rosto mal barbeado, se encosta. – por que tem que trabalhar? vamos ficar aqui de manhã, depois vamos a um restaurante comer ostras, gosta de ostras? – muito. – depois vamos ao cinema, assistir um filme francês, não olharemos o filme, vamos nos beijar e acariciar, gostaria? – sim, mas preciso trabalhar. Sai, fecha a porta, desce pelas escadas, cai, a maleta de metal faz barulho escorregando pelos degraus, a mulher corre, apressada o ajuda a se levantar, entram abraçados, ele senta numa cadeira. – vou ligar pro meu medico, medico e meu melhor amigo, – fala Michel. Esperam, ela com rosto preocupado, ele impassível. A campainha toca, ele abre, homem acima da meia idade aparece, ela desaparece no quarto, o medico tira a pressão, conta a pulsação. – quem é essa mulher? – uma amiga. – onde a encontrou? – não interessa. O amigo fala de mau humor, agressivo. – ela não pode ficar aqui. – por que? – não pode fazer esforço, quantas vezes por dia agüenta uma pulsação de 140? – serei comedido. – e ela será comedida? quantas mulheres o são? não vai resistir. – tenho direito de ter mulher. – mas não igual a essa. O medico deixa Michel, vai à sala, Daniela entra deslumbrante, um vestido vermelho colante realça suas forma, decote generoso, se senta na beira do sofá, o medico também. – onde o conheceu? – num bar. – que espécie de bar? – de prostitutas! - então é uma prostituta? – sim. – não pode ficar, ele precisa dormir durante a noite, andar durante o dia, devagar. O medico espalma os seios de Daniela. Michel aparece. – o quê está acontecendo? O medico se afasta. – nada! ela precisa sair daqui. Daniela se levanta, lagrimas escorrem, fala alto, desesperada. – tenho direito de ser feliz, não tenho culpa de ser prostituta, tenho direito a um homem, ser a mulher dele, não precisa ser bonito, basta ser agradável, carinhoso. Michel se aproxima, ela o abraça, acaricia o rosto dele, o beija. – insisto, precisa ser comedido. Daniela acalmada se senta de novo no sofá. – eu cuido dele, treparemos aqui, na sala, sentados no sofá, ele não fará esforço, fico por cima. – depois irão pro quarto trepar de novo? – fala o medico. – na sala trepamos, no quaro fazemos amor, – responde Daniela, – o amo. O medico se vira na direção de Michel. – esqueceu a Brigitte, como era com ela? – Brigitte era uma puta! Silencio constrangedor, Michel tenta consertar, olha para Daniela. – essas meninas de família às vezes são prostitutas e as prostitutas podem ser damas. Daniela baixa a cabeça, o medico a olha. – nunca conheci mulher como você, só as via em revistas, amor requer sacrifício, eu agora vou ao hospital, tenho cirurgia, retirar seios, ela se descuidou, deixou espalhar a doença, ela veio a mim, a examinei, seios pequenos, como punhos de uma criança prontos a dar um soco, ”doutor peço socorro”, me disse, o que podia dizer? segurei a mão dela, todos dias nos damos as mãos e sorrimos, para mim é o suficiente, e agora preciso mutilar ela, mas continuaremos de mão dada, preciso ir. Levanta -se, Michel o acompanha, no saguão o medico fala. – continuo ser seu amigo, mesmo que por vezes não seja muito fácil. Michel retorna, Daniela o aguarda sentada no sofá. – vamos viajar? – pra onde? – Itália. – como é a Itália? – bonita, quente, alegre, o pessoal dança na rua. Ela se despe, ele a olha, fica de combinação, seus seios emergem, ele continua olhando, seu rosto se transforma, ela se levanta, pega na mão dele, o leva pro quarto. Michel de torso nu se olha no espelho, estufa o peito, se admira, seus olhos brilham, Daniela sai da cama, se aproxima, encosta nele. – te faço bonito, parece um sol... Passaram – se cinco dias, Mônica sem dar sinal de vida, não sabia dizer se aquilo me importava, mas sabia que a raiva que sentia dela teria que desaparecer, que as imagens impregnando minha mente teriam que sumir, para isso na minha concepção ou ela desaparecia ou então eu teria que voltar àquele antro acabar com o Ivan e toda aquela putaria. E Aristides? bom, esse eu ainda decidiria, eu me conhecia bem, a mulher era apenas um apêndice à minha raiva, eu não viveria sossegado sem resolver os problemas incrustados no meu interior, meu pai se revolveria no tumulo, nem ele nem meu avô eram assim, nunca entenderam a razão das minhas raivas, das minhas brigas, moviam as cabeças de quem desistia, meu avô murmurava rezas, meu pai culpava os antepassados da minha mãe o quê era uma bobagem, algum antepassado meu teria sido guerreiro ou facínora? A campainha tocou, perdido em pensamento esqueci a Glock, abri a porta, dois homens encapuzados com escopetas apontando, filme mudo, pantomima, se afastaram, passei pelo meio, fecharam a porta, descemos pelo elevador, o porteiro caído sobre a mesa, entramos num táxi Santana estacionado junto a entrada do prédio. Sentamos, no banco de trás, eu entre os dois, me vendaram, o veiculo arrancou, eu tinha certeza do destino. Vedado ainda fui levado para dentro da casa, conhecia o caminho, um corredor, ouvi o barulho de uma porta abrindo, amarraram meus pulsos, mãos nas costas, retiraram a vendo, me empurraram pra dentro, quarto escuro, chão cimentado, uma janela ao alto com grade, sentei no chão encostado numa parede, pernas dobradas, não estava com medo, estava curioso, um dos meus grandes defeitos a curiosidade, sempre perguntando desde cedo:”papai Noel é de verdade? Deus existe? por que você e mamãe deitam na mesma cama? por que ouço gemidos de noite? por que quer que eu seja advogado? tem vida depois da morte? por que não gostam de judeus? eu sou judeu se mãe é católica? então por que fui circuncidado? então por que fui batizado? por que, por que?”. A porta abriu, me seguraram, injetaram algo no meu braço, saíram mudos como entraram, amoleci, escorreguei pro chão, olhos se fecharam. “... se você tivesse amado a sua mãe ela não teria morrido triste, todos filhos amam suas mães, é lei da natureza, saem de dentro dela, até os assassinos e criminosos amam suas mães, mesmo os retardados, você fugia dela, não deixava ela te beijar, acariciar, seria que ela não tinha nada para ser amada?, não merecia ser amada? sabe o que acho? acho que tem algo de errado com você, algo terrível que assusta as pessoas, não tem amigos e atrai mulheres ruins, tem em você algo espantoso, invalidez da alma, algum retardo, algo irremediavelmente repulsivo, agora você está perdido, violência atrai violência, vai pagar seus pecados, Adonai não te socorrerá, deixou uma profissão decente por outra suja, te falei tantas vezes”... Quis responder ao meu velho, não consegui, o rosto da minha mão apareceu, linda, sorrindo, me olhando com tanto amor, quis lhe dizer que sempre a amei, que não continuasse triste, “mãe eu nunca soube externar meus sentimentos, a timidez me torturava, queria falar, não conseguia, mãe...” Abri os olhos, era de manhã, claridade invadiu o recinto, teias de aranha no teto, baratas circulando, um camundongo corria de um lado pro outro, minha cabeça doía, parecia ter dobrado de tamanho, a língua seca, a boca dava a impressão de estar cheia de areia, a garganta tesa, meu queixo doido, mas eu passara por situações piores. Ouvi um alto falante berrando, de onde vinha? não vi nada que me esclarecesse, concluí que vinha do lado de fora. “...a alma desse país está sendo destruída, e o governo só oferece livre comércio, ações , os bancos enriquecem, desemprego leva aos tóxicos, ao banditismo, fascismo é a salvação, o mundo está sendo destruído pelos judeus, os judeus devem ser mortos, não como foi feito na Alemanha, será de um jeito inteligente, falam em tolerância, isso dá arrepios, os judeus devem ser pisoteados como ratos, como baratas, os mais ricos e brilhantes devem ser e serão os primeiros, a população vai aplaudir, quem não tem raiva dos ricos? quem não inveja os inteligentes? todos aplaudirão, eles serão mortos nos escritórios, nas suas mansões, nas universidades, com armas barulhentas, será um evento, a nossa propaganda, morte aos ricos, aos gênios, nazismo é um movimento romântico, sempre foi, há mil motivos para matar os judeus e mesmo se soubéssemos quais ou quantos sempre aparecerão outros mil, judaísmo é uma doença, as mulheres judias só gostam de sexo oral e os homens judeus adoram isso e sabem por que? porque são essencialmente fêmeas, homens verdadeiros gostam de penetrar, eles são pervertidos, dominam a mídia, os bancos, aplicam o mesmo sistema que usam no sexo, pervertem tudo, os judeus de Israel não são judeus, eles tem terra, são israelenses, o verdadeiro judeu é errante, não tem sol, mar ou terra, não têm raízes, os judeus universalizam tudo, trouxeram o comunismo, a bomba atômica, a pornografia, o Deus deles manda matar e promete mandar uma ovelha nos lugar do morto, todos são ovelhas, covardes, eles se metem onde não são chamados, formam clãs, sabem por que odiamos os judeus? por que são sovinas e exibem seu dinheiro, por que se mantêm afastados, por que são bolchevistas ou capitalistas, por que tem QI alto e têm vida sexual mais ativa, os odiamos por que existem, é um axioma da civilização, global, é tão verdadeiro quanto o fato de o homem desejar a mulher, como a mãe amar seus filhos, assim como o homem teme a morte...”. 29 No cair da noite o arengo parou, eu não me incomodara, o que ouvira não me impressionou nem me deixou raivoso, eu já ouvira e lera tudo antes, meu ódio era contra os que usavam a casa para perversão explicita, mas como os ligar ao anti-semitismo? aquele russo mafioso não tinha cabeça para conceber o neonazismo pátrio, tinha que ser alguém endinheirado, com grana para arriscar, com noção administrativa talvez e até com poder de aliciar autoridades e parte da mídia, eu tinha certeza que descobriria, precisava me desamarrar, trazer os braços das costas pra frente, me contorci, me rebolei, gemi, tive câimbras, não sei quanto tempo levei, parecia infinito, finalmente, as mãos ainda amarradas sobre as pernas esticadas, eu precisava me refazer, fisicamente e mentalmente, as costas me doíam, o abdômen parecia estar rasgado, minha cabeça doía, minha calça molhada de urina, não percebera quando aconteceu, esperei um pouco, sentei com as costas apoiadas na parede, levei as mãos amarradas até a boca, coloquei os dentes no nó, puxei com insistência, descansei, recomecei, quatro intervalos, cinco tentativas, a corda afrouxou, livrei primeiro a mão direita, a esquerda em seguida, desfiz o nó, estiquei a corda, a segurei tesa entre as mãos, levantei e me postei ao lado da porta, comecei a berrar: “socorro!,socorro!”, eu ansiava por cigarro, boca seca, a cabeça doía, os olhos lacrimejavam, a calça molhada me incomodava, a porta abriu, o homem entrou, a luz no recinto muito fraca, deu dois passos à frente, passei a corda pelo pescoço, puxei e apertei, ele jogou o corpo para trás, me empurrou contra a parede, de nada adiantou, senti seu corpo amolecer, o deixei cair, esperei recuperar minha respiração, me baixei em cima dele, coloquei o dedo em cima da carótida, estava morto, revistei o corpo, achei a arma, uma 38, apanhei o maço de cigarros e o isqueiro do cadáver, deixei a corda no chão, saí com a arma na mão. Comecei a abrir todas as portas, ninguém, subi um andar, outras portas, na ultima o Ivan dormia, me aproximei, arranquei o travesseiro, o coloquei em cima do rosto e o pressionei com meus joelhos, deu pra ver seu olhar espantado, atirei duas vezes, o travesseiro abafou os tiros, retirei o travesseiro, o rosto do Ivan esfacelado, saí. Subi mais um andar, a abobada iluminada, fui olhar, dois homens fazendo o que não deviam. Fui até a rua, segurei o negão, “me mostra onde está o cara” , “que cara?”, encostei a arma, ”sabe muito bem quem”, o segui, no fundo corredor uma porta, ele abriu, um recinto vazio, um armário numa parede, caminhamos até ele, o negão afastou o móvel, apareceu outra porta, acertei o negão na testa do lado da cabeça, dos dois lados, ele desmontou, coloquei os dedos na carótida, nenhum sinal, morto, a porta não tinha maçaneta, abria por dentro, tomei distancia, chutei com o pé direita, entrei, um sujeito sentado à frente do computador, o recinto fedia a mofo, a decadência, nenhuma janela, parecia ter sido habitado por mil surradas e anônimas almas, um retrato do Hitler na parede, o cara tentou abrir a gaveta. – é bom não tentar, ponha as mãos em cima da mesa, deita a cabeça nela. Obedeceu. – seu filho da puta! quem é você? – perguntei. Não respondeu, levou uma ima porrada no rim. – responda! Levou outro porrada. – responda! Permaneceu calado. – levanta a cabeça. Levantou, a mão direita, arriei o 38 em cima dos dedos, gemeu, eu contornei a mesa, na gaveta, uma Luger, só podia ser, a coloquei no cinto. – quem é você? – perguntei. Olhou – me com ódio, na respondeu. – quem é você? – insisti. Evitei a cusparada dele. O examinei, um pouco mais de vinte, robusto, me aproximei dele, arriei a arma do lado da cabeça o suficiente para não o fazer desmaiar, não tencionava matá – lo. Revistei os bolsos, encontrei uma carteira abri, do OAB, André Ramos, não me surpreendi. – e a Mônica, o que tem ela nessa palhaçada? Sorriso debochado no rosto. – não tenho medo, você tem sangue judeu, não vai fazer nada, judeu é medroso. Fechei o punho, acertei com violência o nariz dele, o osso afundou no rosto, ele caiu sobre a mesa, sangue escorreu com abundancia, não precisei tomar o pulso, não dava pra matar. O sacudi ele gemeu, levantou a cabeça. – se manda se não quer morrer. Saiu cambaleando. Vasculhei o casarão, achei o deposito, procurei algo inflamável, latas de querosene, apanhei duas, as levei ao térreo, espalhei o conteúdo, retorci um jornal velho, o embebedei no querosene, pus fogo nele com o isqueiro, o jóquei no chão, as chamas seguiram pelo liquido espalhado, esperei o incêndio começar, não demorou muito, as portas de madeira eram velhas e secas. 30 Entrei, cheiro familiar, cheiro de poeira e cigarro queimado, cheiro do ambiente onde vivia um homem, seu universo, onde ele continuará a viver, meu lar, cansado e satisfeito me despi, joguei a roupa no lixo, tomei um banho, precisava me livrar do fedor de querosene, do cheiro de fumaça, me deitei. ...Michel liga o celular, o telefone toca, secretária eletrônica, voz da Daniela: não estou em casa, por favor deixe o recado. Ele desliga, sai apressado do escritório, o táxi o deixa na porta de casa, sobe correndo, entra, no quarto vê a cama desfeita, coloca a mão, ainda está morna, ele circula pelo pequeno apartamento como se quisesse encontra – la escondida em algum canto, revista o armário, as roupas dela sumidas, se senta numa cadeira, espera a noite cair. A rua está silenciosa, o asfalto molhado, ele vê a luz néon Daniela enquadrada nela, o mantô de pele nos ombros, vê um homem bem apessoado entrar, o segue, ouve: – estou com saudades –, fala o estranho, – pensei te ter perdido. A beija no rosto. – tentei me transformar numa mulher de bem. – pelo jeito parece que não conseguiu. – sou uma mulher da noite, gosto do bar, – responde Daniela impassível, – quando fico em casa o dia parece muito longo. Os dois somem no fundo atrás de uma cortina. Michel senta no bar, uma garota se aproxima, deita a cabeça no ombro dele. – por que está triste? – pergunta ela. – o inverno está muito longo – então iremos para o sol, onde é verão agora. – onde? – pro Rio, farei de tudo pra você se apaixonar por mim, tem dinheiro? – ganhei na loteria, quatro milhões. O olha encantada. – vai cuidar de mim? – sim. – me dará presentes? – sim. – pode me dar algo agora para estreitar nosso amor? – estou sem dinheiro comigo. – não importa, amanhã você vai ao banco e depois vamos à agência de viagens. Daniela reaparece, acompanha o cliente até a porta, volta e se senta num tamborete, acende um cigarro, finge não ver o casal. Michel e a garota saem, Daniela os segue, grita: – Michel! – não me chamo Michel, – fala ele sem se virar. – Daniela –, grita a outra, – nos deixa, ele é meu agora. Daniela continua gritando. – diga ele que não é minha culpa, não sei quem sou! Eles continuam a andar. – a conheço um pouco, - falou Michel. – é uma prostituta, sabia? Michel pára, deixa a mulher, volta pro bar, entra, Daniela o olha, ele fica de costas. – preciso lhe dizer algo, aqueles dias que ficamos juntos alegraram minha vida, a felicidade agora sei que existe, – murmura Daniela. Ele se vira e caminha na direção da saída. Ela se levanta. – Michel, também quero que saiba uma coisa. – o quê? O rosto dele revela esperança. – tem outro homem em minha vida. Ele se vira de novo em direção à saída, pára. – um homem importante? – pergunta. – sim, importante. – então só ficou comigo por causa do dinheiro? A garota se aproxima. – é uma puta, não te falei? vem, te farei feliz. – vá com ela, ela acaba de entrar na profissão, ainda não está podre como eu. Michel e a garota caminham para o fundo, ele volta, para na frente de Daniela. – ainda não está tudo resolvido! – quê quer? o dinheiro de volta? Ela abre a bolsa, retira um maço de notas, as joga pro alto, caem em cima do homem. – não ligo pro dinheiro!, – quer saber? eu gosto do que faço! – fala Daniela. A outra mulher o segura pelo braço, saem de novo. Daniela enquadrada pelo néon fuma, parece triste. Michel larga de novo a garota, volta, olha para Daniela, não entra, ela o olha também através do vidro, olhar intenso, apaga o cigarro... Acordei tarde, depois do meio-dia, peguei o jornal deixado por baixo da porta, procurei, numa pagina escondido num canto:“incêndio no Catete, casarão destruída, foram achados corpos carbonizados, o Corpo de Bombeiros acredita que a causa foi um curto circuito por se tratar de um imóvel muito antigo. A Polícia investiga o motivo dos corpos ali serem achados, consta que o imóvel estava abandonado, a Policia acredita que sem teto ali se abrigavam “. Fechei o jornal, o joguei na cesta de papeis, me acomodei na poltrona pensando no próximo passo o que era perda de tempo pois eu sabia o que me esperava. 31 Mônica entrou, estava furiosa, sentou no sofá. – foi você! – eu o quê? – o incêndio! – que incêndio? – não seja cínico, o do Catete! – não sei do que está falando. – daquela casa da Correa Dutra. – não conheço, o que tinha lá? – não banque o idiota, sabe muito bem. Segurei o riso. – o quê tinha lá? você sabe muito bem. Mônica parou com as perguntas, eu acendi um cigarro, esperei. Recomeçou. – morreram carbonizados, meus amigos. Sua voz parecia se esvaziar, um murmúrio triste, sussurro de um papa defunto querendo enganar os parentes do falecido. Não dei mole. – devem estar no inferno! – mas eram meus amigos. Entreguei – lhe meu isqueiro. – ponha fogo nas suas vestes, assim se junta a eles. – é um escroto! – é você uma vagabunda, não te chamo de puta por que as putas trabalham por necessidade, sustentam a família. – fui obrigada. – o motivo? – as circunstâncias. – muito vago. – para sobreviver. – a quê? à morte? – não! à vida com dignidade. – não me faça rir. – tem que ser mulher pra entender. – o chavão de sempre, seja mais criativa, quê me diz do Aristides? Eu sabia, ela não sabia que eu sabia. Cansado da esgrima perdi o bom humor e a paciência, me levantei, peguei um livro, comecei a ler. – não adianta, não vou embora. – à vontade. A observava do canto do olho, movimentou os braços, os colocou nas costas, depois o braço direito desapareceu dentro do vestido, o sutiã apareceu, o balançou de um lado pro outro, um troféu, o colocou ao seu lado, baixou o vestido até a cintura, seios apareceram, levantou, sentou no meu colo, deixei o livro cair, nos beijamos. “Tudo tão vulgar, só nas aldeias mais perdidas no fim do mundo, esquecida por Deus, onde a cultura é apenas um boato, só lá as pessoas agem como você e essa perdida ninfa do diabo, manda ela embora, livre – se dela, ela não presta, se afaste dos perigos que a prostituta representa, dissimulação, lascívia, necessidade de brilhos e adornos, prostituas gostam de andar de noite pelas ruas, tem habilidades para a mentira, emboscadas, furto, assassinato, corações dissimulados, inquietas e impacientes seus pés não param em casa, vivem nas ruas, nas praças, em todos os cantos elas estão de emboscada, ouça o Nelson Rodrigues: O rico e o pobre são duas pessoas/ O soldado protege os dois/ O operário trabalha pelos três/ O cidadão pago pelos quatro/ O vagabundo come pelos cinco/ O advogado rouba os seis/ O juiz condena os sete/ O médico mata os oito/ O coveiro enterra os nove/ O diabo leva os dez/ E a mulher engana os onze”. O velho e o Nelson que se danassem, a levei pra cama, o que me incomodava estava calcinado. Acordei de madrugada, Mônica não estava mais. Levantei – me, fiquei de pé olhando lençol, a marca do corpo dela ainda estampada ali, peguei o lençol e o estraçalhei, o rasguei com minhas mãos, me deitei exausto no colchão, despido, o perfume dela ainda presente. 32 ...Daniela e Michel sobem as escadas, um homem os acompanha, entram, um salão bem iluminado, um homem corpulento na frente do espelho ocupado com o nó da gravata, três homens mal encarados o cercam, ele se vira. – é meu amigo Pierre, – fala Daniela pro Michel. – me deve duzentas pratas, tem que pagar a despesa, aqui todos pagam, – fala Pierre pro Michel. – pago, não sou caloteiro, – responde Michel. – não estou brincando, não brinco em serviço, – continua Pierre, – quem consome deve pagar, ela não está aqui pra brincar, não esqueça que é um trabalho para ela, não é uma história de amor, a historia de amor é comigo. Pierre gesticula nervoso. – posso quebrar seus joelhos quando eu quiser, é só apertar um botão e te deixo aleijado. Michel e Daniele saem. Na rua ele se dirige à mulher. – que sujeito desagradável, quem é? – é meu macho! – por que? – tem pica grossa. – boa resposta pra uma mulher, muito poética! Ela o segura pelo braço, o faz parar. – você quis entrar no mundo da noite, agora faz parte dela, verá coisas que não te agradarão. – por que sofre tanto? por que é prostituta? – sou prostituta e gosto, o quê sou para você? – uma mulher frágil que deixa a guarda cair, tem sombras no rosto. – que sombras? – de ternura. – pára se não choro. – se chorar te pago uma bebida. – acha mesmo que vou chorar por sua causa? Estão na cama, ela se contorce, geme, amassa o travesseiro, gritinhos, olhos reviram, não pára de se contorcer, ele sai de cima dela. – o que foi? - finge! – como sabe? – olhando seus olhos, não mostram vida. Ele vai pra sala, ela o acompanha, senta no sofá e acende um cigarro. – vamos começar de novo, do principio, – fala Michel de pé na frente dela. – sim, – responde ela com ar submisso. – não sou um turista, um sujeito vindo de fora, – continua ele. – está bem. Ela parece arrependida, criança sendo repreendida, submissa, olha para o chão, ele pega na mão dela, sentam-se à mesa, ele se levanta, apanha uma garrafa de vinho e dois copos, abre a garrafa e enche os copos, senta de volta, a olha. – sente alguma coisa por mim? – pergunta Michel. – sim, amor. – pelo meu dinheiro? – sim! - gosta de outras coisas além do dinheiro? – sim, varias coisas. – quais? O clima é tenso, envolto de tristeza reprimida, a melancolia espalhada pelo quarto, ela olha na direção do chão, ele olha pra ela, olhar intenso, ameaçador, com toque de curiosidade. – o jeito que me segura, o respeito nas suas mãos, gosto disso. – obrigado. – gosto da sua companhia. – obrigado. Ela levanta a cabeça segura de si agora, ele parece satisfeito. – mas não fique imaginando coisas. – que coisas? – coisas, não pensa que vai me mudar, continuo prostituta. – não me incomodo, conheço muitas prostituas que transam com meus amigos, nunca transaram comigo. Silenciam, acabam com a garrafa de vinho, não há muita alegria, os dois de cabeça baixa movendo copos vazias... Acordei num sobressalto, me levantei, coloquei o CD de Miles Davis, Concierto de Aranjues, arranjo do grande Gill Evans, me joguei na poltrona. Seria ela apenas uma prostituta? possui as virtudes de uma, vitalidade sexual acima do normal, magnetismo pessoal, carisma, talvez seja apenas maníaca tentando tornar reais seus sonhos doidos, maníacos são perigosos, nos atraem como a luz atrai as mariposas, nos cativam com confidências, pedem ajuda, caímos na armadilha, nos vestimos de piedade orgulhosos por sermos úteis e sem nenhum aviso elas nos agridem, culpam os outros por seus males, eu precisava me livrar dela? decidirei só depois de ter todas as respostas, chegar no fim do caminho iniciado, decidi esperar alguns dias, precisava saber quem era de fato André. 33 ...Pierre se encontra no apartamento de Michel, sentado à mesa a sua frente Daniela e Michel. – o vinho até que bom, me sirva mais, – bebe, coloca o copo na mesa, se olham em silencio, sem antagonismo, Michel submisso, Pierre tentando parecer feroz. – fala logo, não podemos ficar assim o dia todo! – diz Michel. – quem tem que falar é você, – responde Pierre, – desembucha. – nada tenho a dizer. – proponha algo. – propor o quê? – você é quem sabe. Pierre sorri, parece se divertir. – não podemos nos comportar assim, a vida não é um self service, roubar a mulher de outro não é bonito, considero isso uma agressão, não é bonito, sinto falta de Daniela, à noite procuro por ela, encontro outra que nada significa para mim, imagina acordar e não encontrar Daniela, a falta de carinho que isso representa. Pierre aproxima seu rosto ao do Michel por cima da mesa. – precisamos pensar numa compensação, o que pode me oferecer como compensação? Daniela e Michel olham pro Pierre. – de verdade pouca coisa. – que coisa chata, muito chata, – fala Pierre muito compenetrado. – estou ao lado da mulher que amo, não posso me humilhar,– fala Michel. Pierre continua sorrindo. – quer saber? te acho um cara legal. – obrigado. – eu não sou legal, sou muito ranzinza, um velho idiota cheio de princípios, para mim a traição merece a morte. Michel não parece assustado. – antes eu tinha uma amiga, fugiu com um guitarrista, sabe o que fiz? – ao guitarrista? – não, à mulher, a entreguei aos ratos. – chega! – grita Daniela, – ninguém precisa saber dos detalhes. – ele será meu amigo, – responde Pierre apontando o dedo para Michel, – para ser meu amigo precisa conhecer alguns detalhes! ninguém se torna amigo de um canalha como eu em apenas cinco minutos. – você não é um canalha! – grita Daniela. – sim, sou! quer saber como foi? mulher tem pavor dos ratos. Daniela se levanta, grita: – pára, não agüento mais! Corre pro funda sala, Pierre a alcança, a abraça, a leva de volta e a coloca no colo, Michel assiste impassível. – quanto paga para ficar com Daniela? para que fique no meu lugar? diga uma cifra. Michel pensa. – quanto quer? – soube que ganhou na loteria, não é? – sim. – são quatro milhões, não é? – quem te falou? foi ela? – Daniela me diz tudo, tem muitos que me dizem tudo. Pierre acaricia os seios dela. – sabe o quê um cara me disse? que se eu pedir com educação ele você entregará os quatro milhões. – o que recebo em troca? Pierre ainda acaricia os seios de Daniela. – Daniela, ela fica com você, livre de mim, é excelente profissional. Michel não responde, parece estar em duvida. – preciso pensar um pouco. Pierre e a mulher se entreolham, ela vira o rosto na direção de Michel. – olha pra mim que te ajudo a decidir , – fala Daniela. – se olhar pra você me atrapalho, te amo demais. – não esqueça que ela é uma puta, – fala Pierre. Ele parece se divertir. – não esqueço, não esqueço. – tem um detalhe importante , – fala de novo ela, rosto encostado no rosto de Pierre. Michel se estica na cadeira, os olha. – vocês estão mancomunados! – fala. – é o tal mundo da noite! Michel se levanta furioso. – não quero saber do seu mundo da noite, é um nojo! Pierre se coloca à frente de Michel, agressivo. – não quero que insulte minha mulher, - vocifera. – preciso saber se ela é uma mulher ou uma puta! – depende da situação! Sentam. – como é? – insiste Pierre. – preciso pensar mais um pouco. – não esqueça, Daniela está com o destino dela nas suas mãos Daniela deixa o colo de Pierre e dá a costa para os homens. – sei que você não me tolera, mas para ela é insultuoso, ela quer o dinheiro. – mas ela prefere uma pica grossa, como a tua, foi que ela me falou. Pierre se levanta e segura Michel pela gola. – não esqueça que ela me pertence! saiba que dinheiro é veneno, destrói tudo, em especial a felicidade. Michel se ajoelha em frente à Daniela. – se eu entregasse todo meu dinheiro ao seu amigo, você fica comigo? Pierre se levanta apressado, se junta a eles, olhar fixo na mulher. – lembra – se que ele ficara liso, sem dinheiro, terá que viver do salário dele e pelo que sei não é lá muita coisa, – fala Pierre como um professor para um aluno não muito inteligente. Raivosa, Daniela se dirige ao Michel. – lembre – se, não é a mim que você compra, você compra a minha liberdade, a mim é que pertence e posso fazer o que quero com ela, posso ser santa ou vagabunda. – ela pode pegar a sua liberdade, a entregar a você e ela te falar que te ama, – acrescenta Pierre. Michel se levanta, está indeciso, não sabe como agir, se senta de novo, depois dois longos minutos e fala: – não estou interessado. – não está interessado em mim? – pergunta a mulher. Parece desconcertada. – eu te amo mas prefiro ficar com meu dinheiro. Ela se levanta furiosa. – vou fazer as malas. Pierre se senta em frente a Michel. – tem muita coragem, eu não abriria mão de uma mulher como ela. Ela aparece com as malas, Pierre as segura, saem, Pierre pára, estende a mão a Michel, ele hesita, segura a mão estendida. Pierre desce as escadas. – agiu como um gentleman, parabéns. Michel os vê sumir... Acordei, esses sonhos devem ter algum significado, todas vezes que durmo esse sonho aparece como capítulos de uma novela, o que significaria? mera semelhança com a realidade? a minha? Mônica podia ser a viúva do famoso e rico Nogueira, podia ser da alta sociedade, pouco me importava, Mônica era prostituta e Aristides o promoter, eu já sabia o que fazer. 34 Pedi para falar com o doutor Paulo Ramos, não tive problemas, já me conheciam, com certeza correra o boato de que o velho me tratara com civilidade, esperei dez minutos, fui conduzido até a sala mausoléu, o homem com ar de senador americano me aguardou de pé, mostrou uma poltrona, sentou noutra ao lado à minha, na mesinha, dois copos e uma garrafa de vinho, dois copos já servidos. – a que devo sua visita? – peço desculpas por aparecer sem avisar, o senhor foi muito gentil em me receber, deve ser um homem muito ocupado. Ele pegou num copo e bebeu um pouco, não tinha o semblante tranqüilo, diria mesmo que envelhecera bastante, seu olhar perdera a vivacidade, não estava feliz. – problemas? – perguntei. – o senhor percebeu? – sim, está entristecido. Bebeu de novo, esvaziou o copo, eu ainda não pegara no meu, encheu o copo dele de novo. – golpe de estado? Mais uma afirmação de que pergunta. Confirmou com ligeiro movimento de cabeça. – deixa – me adivinhar, o André assumiu manu militari auxiliado por tropa de choque, afastou seus homens de confiança, colocou os dele, em poucas palavras, o confinou na sua sala, para o publico externo continua sendo o dono, de fachada, quando aconteceu? – ontem! – mas planejado há tempo, com certeza. - sim. – e Aristides sumido com certeza, polpuda gratificação no banco o aguardando, alias, tenho a impressão de que ele nunca foi muito ativo na firma, ele tem outras atividades, não é? – sim. - doutor Ramos, o senhor me contrata para colocar tudo nos eixos? Olhou – me surpreso. – consegue? – com certeza. – como? – na ocasião certa o senhor saberá. – os honorários? – não quero dinheiro, se eu for bem sucedido que tal me conseguir um Pollock? Ele sorriu pela primeira vez. – pede o impossível. – quem sabe. – é muito confiante. – é um dos meus defeitos. Continuou sorrindo. – só lhe peço um favor, – falou. – sim? – seja discreto. – com certeza, breve terá noticias minhas. Levantei – me, bebida ainda intacto, estendi a mão, ele a apertou. Saí e de repente parei, o quê me levou até Paulo Ramos? e se ele era parte do imbróglio? era simpático demais, ninguém era, me senti um perfeito idiota, quanto mais pensava mais me convencia que o patriarca da família Ramos era um safado, esse papo dele ser prisioneiro no seu próprio escritório era furado. Parei no bar esquina da Rio Branco com a Inhaúma e sentei, pedi um chope pra me acalmar, era o fim de tarde, hora de saída dos escritórios, todos apressados com rostos cansados, me vi num deles anos atrás, um terror, terminei o chope, pedi outro, comecei a relaxar, uma mulher parou à frente da minha mesa: – faço por duzentos, – falou. Trinta e poucos anos, decote generoso, calça jeans, sapatos plataforma, morena da cor do pecado. – nada feito! – deixo por cem. – senta! – falei. Sentou. – quer um chope? – se não for incomodo prefiro um misto e uma coca. Encomendei ao garçom. – teu nome? – Elaine. Esperei ela acabar, chamei o garçom e paguei, me levantei. – faço por cinqüenta, – falou Elaine ainda sentada. Tirei do bolso quatro notas de cem e as entreguei a mulher. – và pra casa meu bem, nada de michê por hoje. Apanhei um táxi, mandei rumar pra Ipanema, na esquina da Presidente Vargas mandei ele voltar de onde me apanhara, levou algum tempo, parou em frente ao bar, ela ainda estava sentada à mesa, abri a porta: – Elaine, entra! Veio apressada, entrou. Passou a noite no meu apê, eu estava na pior fossa, eu precisava de companhia, passamos a noite vendo a TV, foi boa companhia, quieta e calada, não se jogou pra cima de mim, uma prostituta mais pura que a Mônica, tristeza não tem fim, felicidade sim quando houver felicidade, ela acabou adormecendo no sofá e eu passei a noite bebendo uísque. 35 Esperei escurecer, peguei um táxi, desci no Leblon, entrei no edifício, o porteiro já me conhecia, mas não custava nada em renovar a amizade, mostrei a Glock e subi, toquei a campainha e nada, mais uma vez, nada ainda, bati com os punhos, silêncio, me afastei mirei a fechadura, o pé foi certeiro, a porta cedeu, entrei, Aristides com arma na mão, não me impressionei, colei nele, levou uma cabeçada, desabou, tirei a arma da mão dele e sentei numa poltrona, Mônica me olhava. – senta, mas antes traz o filho da puta contigo! Aristides cambaleou, se jogou noutra poltrona, ela ao seu lado. – não confio, - falou, - num cara como você, o que impede você me matar? – gemeu ele. – nada me impede, um investigador particular é persistente, e eu sou muito, sou pago de um jeito ou outro pelo meu tempo gasto com merdas como vocês dois, no fundo é uma diversão como qualquer outra e você minha querida, quando me procurou sabia o que eu era, enfia nessa sua linda cabecinha que eu não brinco em serviço. – pois eu acho que é um imbecil, numa profissão imbecil e você aparecer aqui foi um ato imbecil, - falou Mônica. – sim, sou imbecil por querer desvendar o mistério que cerca uma prostituta. – mas afinal, o que quer? – perguntou Aristides, – quero a ela! – como? – fácil, me paga. – pagar? já te paguei uma vez, você recusou, se a quer quem deve pagar é você. – então reconhece que é dono dela. Dirigi – me a Mônica. – quantos programas por mês? – do quê está falando? – não se faça de besta, responda. – está me ofendendo. Levantei – me e acertei um tapa violento no rosto dela. – quer outro? fala! Olhou pro Aristides, ele acenou com a cabeça. – sessenta talvez. – nada mal, têm outras? desembucha seu filho da puta! Fiz menção de o agredir. – não, por favor, mais cinco. – cinco vezes sessenta, trezentos, esplendido, fora trabalhos extra, como na casa da Correa Dutra, talvez mais, oitenta por mês, quanto o michê? – quinhentos! – quarentinhas por mês, arredondando quinhentos mil por ano. Legal, gostei, quanto paga a elas? – trinta por cento! – é muito generoso. Virei – me na direção da Mônica. – e onde está a herança do Nogueira? – não tem, estava falido. – então por que aquela papagaiada com os FONSECA. – tem propriedades, esse apartamento, uma fazenda no Mato Grosso, uma casa em Guarujá e mais outros em cantos diversos, ameaçaram tirá – las de mim. – vá lá que seja. Levantei – me, segurei o Aristides pelo braço, a Mônica pelo cabelo. – vamos! – pra onde? – pro computador, não me façam ficar nervoso. Mandei Aristides acessar seus bancos, cinco ao todo, dez milhões em cada, satisfatório para o que me interessava. Em seguida coloquei o canivete suíço na mão do Aristides. – desparafuse as laterais dos computadores, anda logo. – não! Acertei uma porrada no nariz dele. – anda logo! Nervoso e desajeitado levou mais de meia hora, terminada a tarefa peguei de volta o canivete, retirei dos computadores os HD´s, voltamos pra sala. – não vai te servir pra nada, – falou Mônica, – tem senha. – acha que sou bobo? a senha do teu é Aristides e dele é Mônica, não é? muito bem, o seguinte, os HD´s são garantia, suas atividades cessaram, qualquer recaída divulgo o conteúdo, o fisco vai gostar, tudo registrado neles, entendido? Aristides, vá se vestir! Servi – me de outra bebida, olhei pra Mônica, não estava alterada, parecia mesmo aliviada, também se serviu do uísque, me lembrei de algo escrito por Raymond Chandler no seu livro The Long Goodbye: “bebida é como o amor, o primeiro beijo é magia, o segundo beijo é desejo, o terceiro é rotina, depois é só despir a garota”. Aristides voltou. – vamos! – falei. O segurei pelo braço, saímos, na calçada larguei Aristides. – o quê o que seu pai tem nisso tudo? – nada! Não insisti. Pulei num táxi, senti saudade da Elaine. 36 ...Daniela com Pierre no carro, ele impassível segura o braço dele e encosta a cabeça, vestia seu eterno mantô de peles. – o que está sentindo voltando pra casa com seu homem? – pergunta Pierre. – me sinto bem. – viu? a deixei livre, deixei que vivesse em liberdade, não sou um homem possessivo. – não é ruim ser possuída por você. – não brinque comigo, sou perigoso. – sei, é capaz do pior. – mas você tem o melhor, tudo que quer, sempre volta para mim. – volto por que não tenho coragem de ser livre. A conversa é fria, estão juntos, muito juntos, mas longe um do outro, o carro segue silencioso pelas ruas silenciosas. Os dois estão na cama, Pierre em cima dela se movimenta, uma locomotiva bufando, continua sem parar, ela não demonstra nenhuma emoção, ele para e olha pra ela. – o que está acontecendo? – pergunta. – o quê quer dizer? – sei lá, costuma fazer escândalo e agora está quieta, ficava doida, não vai me dizer que não te excito mais. Ela se estica, se esforça para aparentar luxuria. – não é nada disso, - ela murmura. – então vamos! anime –se! Pierre recomeça com violência, depois alguns segundos ela o segura, ele pára. – sinto – me paralisada, – fala Daniele. – sou eu, Pierre, você não me reconhece? - sim, te reconheço, é a primeira vez que acontece. – sim, a primeira vez. – Pierre, me desculpa. Ele pula da cama, começa a andar de um lado pro outro. – esse cara te deixou maluca! ele faz coisas que eu não faço? Daniela se senta, ainda na cama. – ele faz amor, com o coração! – cuidado, posso fazer uma besteira. – sim, pode. – uma grande besteira apesar do amor que sinto por você. Pierre está furioso, Daniela não se assusta. – preferia que você fosse mais carinhoso. – sempre te tratei bem, não sou carinhoso, sou malvado. Ele se aproxima lentamente da cama, ela recua, parece amedrontada. – é de mim que tem medo? – pergunta Pierre. – não tenho medo! não me deixe mais ir embora, preciso de você, aprendi tudo com você, o bem e o mal, amo você. – aquele seu amigo, como se chama mesmo? – Michel. – o quê foi que ele te fez? – nada. – não passou as mãos pelo seu corpo, pelos seus seios, pela sua bunda? – ele me deu o melhor presente que uma prostituta pode querer. – o quê? – o pudor. – é mesmo? eu também posso te dar pudor, que coisa mais bela, eu também vou te devolver o pudor. Pierre vai até a porta, chama seus dois guarda costas. – venham, podem entrar! minha mulher acabou de encontrar o pudor, podem tocar nela. – podemos? – sim, é a minha mulher. – ela fez alguma besteira? – perguntou um deles. – sim, encontrou um sujeito mais encantador que eu, mais refinado, um cara que acaricia as mulheres, mas ela não sabe se o ama ou não, – responde Pierre–, diz que o ama, mas não o suficiente. Os homens passam as mãos no rosto dela, nas costas, pelos seios, ela se mantém imóvel. – chega, saiam! – ordena Pierre. Ele está mais calmo, parece conformado. - pode voltar pra ele, pro Michel. Daniela se veste, ele a olha. - te amo tanto que te deixo voltar pra ele, é uma grande prova de amor... Acordei de repente, aquele sonho me assustava, de onde surgiu, por que não desaparece e recomeça sempre de onde parou, parecia querer me mostrar um caminho a percorrer, ou um caminho já trilhado. Manhã bela, temperatura amena, pela janela entrou a brisa do Leste, a vida me parecia ser muito simples e muito doce, mas não para quem tem muitas perguntas e poucas respostas. Eu tinha um monte. Vesti um calção e fui à praia, fazia tempo que não ia. 37 – agora sabe a verdade, – falou Mônica ao entrar. Vestia camiseta jeans, tênis, nenhum adorno, nem mesmo brincos, cabelos puxados para trás, rabo de cavalo, rosto sem maquilagem, nem mesmo batom, sentou – se no sofá, não parecia estar à vontade. – sim, mas não toda, o que sei preciso esquecer e talvez vou. – sabe –, ela continuou, – você me surpreendeu, é honesto demais, não faz parte desse mundo. – não ligo pro dinheiro, o desprezo mesmo. Não sabia o que fazer, o quê falar, uma outra Mônica à minha frente, mulher camaleão. – você está com medo nesse momento, – falei sem querer. – muito medo, muito, estou com aquele frio no estomago, não consigo acreditar no que aconteceu, como se eu descesse de uma montanha russa, tonta. Despejei um monte de bobagem, a vida vale a pena viver, e como ela era bonita, ainda jovem e com saúde, que devia esquecer as ansiedades que agora eram ridículas, as preocupações com o futuro, todas aquelas banalidades que faziam sentido mas não valiam nada, ela me olhava, parecia escutar o que eu dizia, de repente se levantou e sentou no braço da poltrona. – acaricie meu seio, o direito, não quero beijo, não quero sexo, quero sua mão no seio. Coloquei a mão, eu estava tremulo como um adolescente no primeiro contato com o corpo da namorada, combinação de erotismo e ternura, era isso que estava acontecendo, ela começou a chorar. – não conheci ninguém que gostava tanto do meu corpo como você. Retirei a mão, ela parou o choro, enxugou as lagrimas com o dorso da mão. “calma meu filho, para os judeus o sexo não é vergonhoso, pecaminoso, sexo é necessário tanto quanto a fome e a sede, mas deve ser controlado, deve realizar - se no momento certo, num lugar apropriado e de modo correto, e depois quando desejo de sexo for satisfeito como convém, a mulher e o homem percebem que o ato sexual é conseqüência do amor e não apenas do desejo”. Amor? mas eu ainda precisava saber de algo que me incomodava, peguei Mônica nos meus braços e a levei de volta pro sofá, a coloquei ali com cuidado, passei a mão pelos seus cabelos e fui me servir de uísque, levei um copo pra ela. – ainda estou com medo, – falou ela. – de quê? - de te perder. Sumiu no quarto, demorou pouco, voltou envolta no meu robe de chambre de seda nunca usado, presente de não sei quem, o deixou cair, estava nua, bela como uma praia deserta, a mais bela jamais vista por mim. O diabo vestia seda. 38 A mesmice, sempre, todos falando num tom acima do normal, ninguém se importando com a conversa, bocas abrindo e fechando, gargalhadas sem motivos aparentes, a maioria agarrada a um copo com bebida, olhos brilhando, rostos incendiados ou rosados ou mesmo pálidos, dependia do quanto já passou pelas goelas deles, DJ, comida farta, de caviar e ostras a batatas fritas, festa no apartamento da Mônica, mulheres lindas e elegantes, mulheres não tão lindas e não tão elegantes, mulheres escort, garotões escort, metrossexuais, gays, homens sem rotulo, gringos, um mundo já bastante conhecido por mim, mas nunca visto como aqui, a não ser atrás das grades. Convite especial da Senhora Mônica Nogueira, limusine na porta, apareci curioso, fui sem querer ir. Encostado num canto com bebida na mão, enjoado de ser importunado por garçons com bandejas, dispensei olhares das mulheres, rechacei dois gays, observei homens agrupados bebendo e rindo de piadas batidas, homens sérios falando de política, outros de futebol, mulheres tagarelando, risinhos, olhares, comentários ácidos. Ouvi musica excitante, tekno music, uma roda se formou, Mônica deslumbrante dançava solo, sensual e elegante. Um cara se aproximou de mim, copo na mão. – maravilhosa mulher! – falou. Não me dei o trabalho de responder. – a queria nem que fosse por uma única vez. Fiquei curioso, homem bem apessoado, um dos poucos vestidos sem exagero, como eu, simpatizei. – é só pagar, – falei. – tem certeza? – fala com aquele cara ali, – apontei na direção de Aristides. – pois não vou, vou conseguir sem gastar picas, quer apostar? – se não gastar agora vai gastar mais tarde, transa nunca é de graça. Aristides se aproximou. – Monteverde! prazer em te ver aqui! – paz e amor! – respondi, – esse cara ao meu lado gostou muito de Mônica. – é minha, ninguém toca nela! Afastou – se. – viu? – deixa comigo, – me respondeu o cara. Entregou – me o copo dele e sumiu no meio do pessoal. Larguei os copos num canto, circulei, homem invisível na festa de vampiros, Polanski se divertiria, passei por jovens numa coreografia sensual, os não tão jovens achando que eram jovens, velhos engolindo inveja, Mônica sumida, o cara do “deixa comigo” também, sorri, se o deixasse ele ia se ferrar. Abri uma porta, pequena sala, um corredor e quatro portas, abri duas, na terceira Mônica trepando, o cara virou o rosto, sorriu. – ganhei a aposta, meu camarada. – ainda não. Aristides entrou acompanhado de dois negões, os mesmos que tentaram me encaçapar naquela noite gloriosa. Encostei – me numa parede. Num sinal de Aristides, o gostosão foi arrancado de cima de Mônica, ela vestiu a calcinha, ajeitou o vestido e saiu. Aristides segurava uma arma. – posso te queimar agora, – falou. – Aristides, deixa de valentia, você não é disso, – falei. – não se meta! e você o quê tá fazendo aqui? Sinalizou prum negão pra me expulsar, o negão fingiu não me ver, o “deixa comigo” não se abalou. – quanto? – perguntou. – cinco mil! – tem que ser cheque! – aceito. O “deixa comigo”, se vestiu, retirou o talão, preencheu um cheque e o entregou ao Aristides. – da próxima vez fale comigo primeiro. Ele e os capangas saíram. – e agora? – perguntei. – mas valeu a pena, vamos beber algo. A festa rolou, o “deixa comigo” se agarrou a uma desgarrada e sumiu de novo, o cara era bom mesmo, Mônica aparecia e sumia. Fiquei até o fim, quatro da manhã, meio bêbado, meio puto da vida. Ao me despedir de Mônica, perguntei: – quanto faturou? – não é da sua conta! – interveio Aristides – cara, já te falei de largar isso! Ele riu e agarrou Mônica pela cintura, levou uma cabeçada, desmontou. – é um animal! – berrou Mônica. – dois! – respondi. O tapa que levou deve ter ressoado até o Arpoador. 39 Acordei numa boa, nada me perturbara na véspera, não tive ciúmes dela, não se pode ter ciúmes de prostituta. Estava bem definido, Mônica era o que era, Aristides o cafiola e ponto final. A campainha me perturbou, sabia que era Mônica, abri, ela entrou. – por que engrossou na festa? Aproximou – se e me beijou, não correspondi. – posso ser prostituta, mas também posso amar. Ela abriu a porta, saiu e voltou com duas malas, as deixou no chão, sentou no sofá, continuei calado. – me mudo pra cá, quero ser tua mulher. Sentei na poltrona, precisava de um cigarro, urgente. – e o Aristides? – posso com ele. Não me dei o trabalho de discutir. Não dá para negar, o resto do dia foi agradável, presença de mulher no meu apê não incomodou. Ela saiu e voltou com flores, do supermercado trouxe mantimentos, providenciou almoço, salada, filé, molho de champignon, batata frita, arroz, simples e maravilhoso, sobremesa frutas. Fazia tempo que não me sentia tão bem. Dei uma desculpa e saí, deixei ela arrumar a casa. Uma hora mais tarde voltei, o embrulho com o presente na minha mão. – Mônica! Nenhuma resposta. Entrei no quarto, em cima da cama um bilhete:“Aristides veio me buscar, desculpe “. Joguei o papel na latrina e dei descarga, o presente no lixo. ... Daniele sobe as escadas, carrega duas malas pesadas, chega exausta em frente a porta da mansarda de Michel, com suas chaves abre e entra, Michel não se encontra na sala, coloca as malas no chão, entra no quarto, Michel em cima de uma mulher se movimenta com energia, vira a cabeça, vê Daniela se levanta e veste calças, a mulher se cobre com o lençol, ele leva Daniela até a sala. – é minha vizinha, – fala ele, – nada sério. – eu viro as costas e você logo arruma outra. – o quê quer que eu faça? você não pára aqui, sai, nunca sei quando volta. A vizinha aparece se dirige á Daniela. – foi só um passa tempo, mas quando não o quiser mais eu fico com ele. – ficar com ele é minha intenção, – responde Daniela. A vizinha sai, fecha a porta. Michel anda de um lado para o outro, pára na frente de Daniela. – não me olhe assim, você some e eu me desespero. – vá tomar um banho! – por que? – não quero sentir o cheiro de outra mulher no seu corpo. – não fale assim comigo! – por favor, seja gentil, –fala Daniela. – e por que seria? – estou querendo dizer que te amo! – grita Daniela quase desesperada. Michel se aproxima, a segura. – não fica assim amor, vamos ser felizes, você vai ver! – você acha? – sim, com certeza. – mesmo quando o dinheiro acabar? Ele a olha, seu olhar sorrindo, o rosto sereno. – nunca tive dinheiro, vivo do meu salário! – e a loteria? – não ganhei nada, não jogo. Daniela parece não acreditar, parece querer agredí – lo. – foi tudo mentira? – é obvio que foi. Ela parece genuinamente surpresa, boquiaberta o olha. – safado! riu da minha cara! Ele sorri. – um pouco. Ele continua sorrindo, Daniela se levanta aos gritos. – pensa que levou a melhor, pensa que ganhou essa? – sim, ganhei,– responde Michel seguro de si. Aproxima – se devagar dela, braços abertos. – ganhei sim, veja como se derrete toda. A segura pelos ombros com carinho, a abraça, ele se rende aos carinhos dele. – ganhei mesmo! Abraçam – se, ela sorri um pouco. – seu safado! Vão ao quarto. Movimentam –se devagar, absorvem o prazer de cada movimento, estão felizes. A campainha toca, Michel abre, a mansarda é invadida, colegas do escritório. – viemos festejar sua alegria, sabemos que ela está aqui, – fala o chefe, – trouxemos bebida e comida. Alguém coloca um disco, começam a dançar, bebida e servida, Michel está triste, se sente um espectador, ninguém toma conhecimento da presença dele. Daniela aprece num vestido vermelho ousado e quase transparente, dança, requebra, hipnotiza, aplaudem. Um colega do escritório se aproxima dele. – mulher maravilhosa! Michel se cala. – gostaria ter ela só por alguns minutos. Michel se afasta. Pierre entra pela porta aberta com duas garrafas de champanhe na mão, dança com elas nas mãos. – essa mulher é minha! – grita ao se aproximar de Daniela. Rebola em torno dela, ela se afasta, Pierre continua dançando, Michel recolhido num canto, todos se divertem menos ele. Pierre bêbado tira arma de dentro do paletó. – se eu quiser acabo com a festa, sou um sujeito mal. Recoloca a arma dentro do paletó. Michel procura pela Daniele, não está em lugar nenhum. Olha pela janela, a vê fazendo amor com o colega dele, é o apartamento da vizinha. Não esboça nenhum movimento. Ela reaparece, o colega se aproxima de Michel. – desculpe, não pude me segurar. Michel desliga o som. - a festa acabou! – vocifera. Começam a sair. Todos voltam conduzidos por Pierre. – a festa acaba quando eu quiser. A musica recomeça, dançam, Daniela faz o show... 40 Vinte dias sem Mônica, senti falta das idas e vindas dela, de um apartamento pro outro, dos momentos de intimidade, mas meu dever era cumprir o contrato, enquanto Aristides rondava por aí o caso ainda estava em aberto, contas tinham que ser ajustadas. Caminhei até o edifício dela, falei com o porteiro, “dona Mônica se encontra?”, “não doutor”, “saiu?”, “viajou”, “pra onde?”, “não sei dizer”, “quando foi?”, ”são duas semanas”, “foi de carro?”, “sim, com doutor Aristides”. Levei mais de duas horas no telefone procurando pelo Aristides Ramos em todos as cidades a duzentos quilômetros do Rio, enchi meu saco com as vozes eletrônicas, se quiser isso tecle no 2, se quiser aquilo tecle 4, se quiser mais outro tecle 7, um porre, acabei encontrando o que queria, em Cantagalo. Disquei, voz desconhecida atendeu, de homem, falei que era do correio, que tinha encomenda para o doutor Aristides Ramos, que no endereço dado não constava ninguém de nome Aristides Ramos, e que da encomenda não constava o remetente, portanto, o correio ciente de sua obrigação indagou na companhia telefônica o numero do telefone de Aristides Ramos, o correio precisava do endereço verdadeiro e se desculpava pelo incomodo e portanto , meu senhor, qual é o endereço da residência do doutor Aristides Ramos, o senhor entende, o correio nacional hoje não é mais igual ao de antes, hoje nos orgulhamos pela eficiência, e assim por favor tenha a gentileza de nos informar, na encomenda está escrito urgente, e frágil, asseguramos a segurança, se houver danos ressarciremos o prejuízo, hoje tudo e segurado, o senhor sabia? pois é, hoje o Brasil é outro, não mais... eu falava depressa, enrolava, não deixava o cara pensar, precisava o deixar impaciente, o estratagema deu certo, o cara me interrompeu e vomitou o quê eu queria saber, desliguei. Aluguei um carro, a Glock de companhia e me mandei pra Cantagalo, quase duzentos quilômetros de estrada, após quatro horas de viagem cheguei no cair da tarde, perto da rodoviária achei o hotel que eu precisava, nada de luxo nem mordomia, me registrei com dados falsos, não queria deixar rastro, uma noite e bye bye. No quarto infame reli o endereço, Sitio Bela Vista, Km 52 da estrada Cantagalo – Euclidelândia, placa indicadora do acesso, dez quilômetros por estrada secundária, FAZENDA BELA VISTA. Caminho lamacento, uma hora para percorrer os dez quilômetros, caixa de correio, Fazenda BELA VISTA, Aristides Ramos em destaque, parei o carro e saltei. Saíra cedo de Cantagalo, o dia ainda estava claro, não abri a porteira, nada dava pra ver ao longe, o nevoeiro muito denso, apenas um caminho, com certeza levava pra Casa Grande, voltei pro carro, procurei lugar abrigado pra estacionar, achei pequena clareira afastada duzentos metros da porteira, desliguei o motor e esperei, eram duas da tarde, o escuro só daqui seis horas, tentei relaxar, não devia ter saído tão cedo, impaciência guiava meus passos. Eu tinha pena da Mônica, ela agia como estivesse se castigando por algo muito grave que cometera, ou sabia que nada fizera, entrava e saía da felicidade e tristeza num picar de olhos. Eu entendia muito bem do assunto, vivi a tristeza do meu avô, ele agia como se tivesse cometido algo de ruim e sentisse culpa. Ás vezes eu achava que minha avó o torturava de propósito, ele se queixava da falta de carinho dela, da mão que não o afagava, não o abraçava, do beijo no rosto, estava sempre muito triste, embora sempre tentasse, como de costume, demonstrar sua bonomia falando sem parar, durante toda sua vida ele se sentia culpado por qualquer momento de silêncio que pudesse ocorrer, rugas profundas no seu rosto o faziam parecer mais velho do que era, de repente calava, se recolhia num cato no sofá, olhar perdido e chorava. Nunca ousei perguntar por que. Todo velho chora me diziam. Nada deixou de ser examinado, coração, pulmões, ondas cerebrais, digestão, hormônios, sistema nervoso, circulação do sangue. Uma noite ele veio ao meu quarto e se deitou ao meu lado, nunca fizera isso antes, e dormiu, mas eu não conseguia dormir, e ele continuava assim todas as noites. Numa das noites ele se levantou e falou: “não tenha medo” e se deitou no chão, era como se uma onda gigantesca me tivesse arrastado, me tivesse arremessado para o alto, para o fundo, para depois me lançar numa praia desconhecida. Uma noite ele começou a tossir, de manhã o encontrei morto, no chão, junto à minha cama. E agora quem se sentia culpado era eu, devia ter sido mais carinhoso com ele, talvez ele se abrisse comigo, me contasse o que o afligia, mas isso não aconteceria. Ele era um homem incapaz de externar com palavras seu sofrimento, fechado e encabulado, discreto, amava e achava que não era amado, eu o ouvia se queixar pra minha avó, ela o ouvia calada, uma noite, ele sempre tocava no assunta a noite, o ouvi falar: ”por que não diz nada, se cala como se eu fosse culpado” e ela respondia: ”o quê posso dizer?”, “um carinho seu me satisfaria”, e depois se calava, e calou – se para sempre. Muito mais tarde perguntei ao meu pai se sabia a razão do meu avô ter sido tão infeliz e ele me olhou com carinho e falou: “filho há muitos motivos, a nossa raça é infeliz e melancólica, ele sofreu muito, novo país, nova língua, parentes espalhados pelo mundo, deixou fortuna para trás, fez fortuna de novo, crédulo demais foi enganado e roubado, desistiu de lutar, desistiu da vida“. Olhei o relógio, mais de oito horas, escuridão total, quando se pensa no passado o tempo corre. Coloquei a arma na cintura, apanhei a lanterna do porta – luvas e saí do carro. O céu estrelado bom para uma noite de amor não para o que viria, sangue e ossos quebrados. Abri a porteira, peguei o caminho visto durante o dia, a lanterna me guiou, não levei muito tempo, talvez dez minutos, uma casa apareceu, nada suntuosa, esperava por mais, mas me facilitaria. Nenhuma luz no exterior, apenas uma na pequena varanda, a porta da entrada logo atrás, não dava pra saber a cor das paredes, nenhuma cor, achei estranho eu querer saber das cores, mas eu queria saber de muitas coisas, queria saber como um jato 747 conseguia pousar, por quanto tempo vivem os tubarões, queria saber tudo antes de morrer, rechacei o pensamento mórbido, e me aproximei, a casa era de madeira, tabuas e pregos. Ouvi vozes, vozes fortes de homens e de uma mulher chorando pedindo para que parassem. Olhei pela janela aberta, vi um amplo recinto, piso cimentado, um sofá coberto de pele de boi e nele Mônica despida, dois homens, um desconhecido e Aristides a olhavam. O desconhecido nu da cintura para cima, Aristides de terno, tive vontade de os acertar dali mesmo. – quer mais do mesmo? – ouvi Aristides perguntar. Ela cuspiu no rosto dele, o outro a segurou pelo pescoço. Às vezes acho que não tenho nada na cachola e só me guio pelos sentimentos, e eu estava com muita raiva, pulei a janela sem muito esforço, o homem largou o pescoço da Mônica e a levantou, a colocou a sua frente. Eu tinha a Glock na mão, não podia atirar, ele a largou e se jogou atrás do sofá, me aproximei para atirar, mas Aristides correu para uma porta, me distraí, e ouvi um tiro, era o cara do sofá, me abriguei de trás de uma poltrona, acertei a cara no quarto tiro, desapareceu de novo de trás do sofá, ainda deu pra ouvir: ”não precisava...”, o acertei mais uma vez, deu o ultimo suspiro. Ouvia Mônica choramingar, nada podia fazer por ela, não sabia onde Aristides se encontrava, levantei a cabeça, Aristides encolhido num canto, saí de trás da poltrona, Aristides parecia estar congelado, me olhava sem me ver. - vista - se, – falei pra Mônica. Ela desapareceu de trás de uma cortina. – Aristides! – gritei. Olhou – me. – Aristides! – berrei de novo. Aproximou – se, parecia refeito. – por que? – perguntou. – por que o quê? – por que se incomoda com uma puta? – amo as putas, – falei. – essa é a pior de todas. – por isso a amo mais que as outras, por que a trouxe pra cá? – é rica, quero o dinheiro dela, a gente racha. Não valia a pena discutir, virei na direção da cortina. – Mônica, anda! Foi um erro, Aristides se arremessou na minha direção, perdi o equilíbrio, a Glock caiu da minha mão, ele a apanhou, a apontou na minha direção, ouvi um tiro, Mônica com uma arma na mão, Aristides caiu com um furo na testa. Ela deixou cair a pistola, a apanhei do chão, a limpei de ponta a ponta e a coloquei na mão de Aristides. Com a mão na pistola atirei no corpo do desconhecido. Com a arma caída ao lado do desconhecido e coberta por meu lenço, atirei uma vez no Aristides estendido no chão. – vão pensar que foi um duelo, confio na ineficiência da policia local, tem balas minhas por aí. Mônica me olhava, parecia hipnotizada. - onde conseguiu a pistola? – perguntei. - estava lá mesmo, – respondeu baixinho, - ouvi sua conversa com Aristides. – estava atrás de sua grana? – não, queima de arquivo, não é assim que se fala? – quem era o outro? – o caseiro. – te fizeram mal? Sabia que sim, a maldade me obrigou a perguntar, não entendia meus sentimentos, gostava e a detestava ao mesmo tempo, acabara de arriscar minha vida por ela e ainda estava em duvida. – por que veio? – murmurou Mônica. – dever profissional. - mente! por que? – use a imaginação, - respondi por falta do que dizer. Procurei as cápsulas deflagradas da Glock, levei algum tempo, achei todas e as embolsei. Entrei no asfalto, acelerei o carro, precisava me afastar dali o mais rápido possível, os dois silenciosos, não havia o que dizer. A cinqüenta quilômetros do Rio parei num motel. – vamos descansar, você e eu precisamos, toma um banho e depois se deite. Não protestou. Passamos o restante da madrugada ali, ela numa cama, eu na outra. Acordei com o sol no rosto, ela ainda dormia, a olhei e senti medo. Chegamos no apartamento do Leblon as quatro da tarde, chamei o medico, o numero dele no celular dela. “passou por maus momentos”, falei ao doutor, ele tirou a pressão, um pouco acima do normal, batimentos do coração acelerados, pediu para ver se havia Valium na gaveta da mesa de cabeceira, havia, peguei um copo com água, ela engoliu a pastilha, deitou a cabeça no travesseiro, dormiu, paguei o medico, quinhentas pratas, paguei mais mil, “doutor, por favor mande uma enfermeira”, prometeu que enviaria e saiu. Sentei numa cadeira ao lado da cama, fiquei ali por mais de uma hora, tive a impressão de ver ela pela primeira vez, seu belo rosto distendido, lábios entreabertos, respiração suave, a amei pela primeira vez. Uma hora mais tarde o porteiro anunciou a enfermeira, abri a porta, ela entrou, dei instrução par deixar Mônica dormir, quando acordasse que a ajudasse no banho, deixei mais mil com ela, “para a comida”, deixei meu telefone e saí. Acordei descansado, apanhei o jornal, escondido na oitava pagina do caderno principal, “tragédia na fazenda BELA VISTA no distrito de Cantagalo. Aristides Ramos renomado advogado do Rio de Janeiro encontrado morto à bala. Outro homem com passado criminal morto por bala. A Polícia local acredita tratar - se de vingança”. Joguei o jornal longe 41 Eu tinha pressa, com Aristides morto precisa dar o fim em definitivo à confusão. No relógio nove horas da noite, me vesti, liguei pro RENT A CAR, arma na cintura, desci, esperei dez minutos, o ASTRA encostou, peguei as chaves e parti, sabia onde ficava a mansão dos Ramos, na Ladeira do Ascurra, Cosme Velho. Saí do túnel, esperei com calma e prudência, não queria nada que me impedisse na missão, atravessei a pista, imbiquei na ladeira, peguei a subida sem me apressar, Ao longo da estrada algumas casas construídas durante o Segundo Império, sólidas, sombrias, nada convidativas, arvores frondosa escondendo as estrelas, paralelepípedos fazendo o carro trepidar, curvas apertadas exigiam manobras cautelosas, quase nenhuma iluminação, odor de folhas mortas se esgueirou pela fresta da janela, vinha da encosta, o odor me lembrou de IML, de cadáveres congelados, de um céu escuro sem luar. Parei em frente à mansão, o Palácio de Buckingham numa escala de 1/10, cinzenta, assustadora e certamente com menos janelas que o Palácio. Sombras maléficas me envolviam, dedos invisíveis apertavam minha garganta, o frio e a umidade me encolheram, inspirei o ar frio, a garganta ardeu, tossi, respirei de novo, inspirei e expirei cinco vezes seguido. A visão da Baia da Guanabara e os reflexos luminosos no espelho d´àgua, nos edifícios manchas luminosas pareciam vaga-lumes, as casas nos morros pareciam estar suspensas por fios invisíveis, a Lagoa com o contorno iluminado parecia um colar de perolas abraçando um imenso topázio, vida pulsava a quilômetros de onde me encontrava, toda essa beleza me esquentou, me levou de volta à normalidade, me deu vontade de voltar ao carro, retornar à balburdia urbana de Ipanema, parar de escarafunchar o lixão inorgânico dos poderosos, de reavivar o passado enterrado no cemitério das almas, tentar recolocar a tampa na Caixa da Pandora Carioca. A noite era deslumbrante, a estrela Vênus dominava, o refletor celeste brilhava mais que a própria vida, mais que uma garrafa de Ballantine´s. Acariciei a Glock, parei em frente ao portão, nenhum segurança, empurrei, ele abriu fácil e silencioso, amplo jardim às escuras, gigantescas palmeiras e arbustos obesos vigiavam, nenhum caminho para me levar ao palácio, andei pela grama, latidos de cães vindo de longe pareciam gritar: ”cuidado!”, um gato miou, vi seus olhos brilhar na escuridão, não gostava de gatos, outros se juntaram a este, dois, três, quatro, dezenas, o miado deles um coro assustador, uma luz se acendeu na mansão, os gatos sumiram, ouvi uma porta guinchar, o facho de luz iluminou meu caminho, subi cinco degraus de pedra arrumada, um mulato encorpado me aguardava, arma num coldre, não me importei, já vira tantas armas na minha vida que não me assustavam mais. – preciso falar com senhor Paulo Ramos. – não pode! – ele não está? – está, mas não pode! – está doente? – não está, mas não pode. – está dormindo? – não está, mas não pode! Não pode, não pode, sempre a mesma resposta às perguntas, meu sangue começou a ferver, tudo ou nada, retirei a Glock da cintura, o mulato a sua arma, parecia um filme de John Woo, coloquei minha arma de volta na cintura. – se você acha que é forte e valente não precisa desse brinquedo, – falei, – e se precisa não é valente e forte o suficiente para se meter comigo. Passei por ele, me encontrei numa ante-sala totalmente despojada, me lembrou de um quarto de sanatório de loucos, nunca estive num, Hollywood me doutrinara o suficiente para reconhecer um, segui adiante, entrei num amplo salão, a pessoa que a decorara com certeza era alguém que as cores não o assustavam, me vi cercado de um caleidoscópio de vítreos, inúmeros bibelôs pareciam querer pular em cima de mim, tapeçarias medievais apontavam lanças, bricabraque de mesinhas, de cadeiras de vários tamanhos por todo canto, até no meio da sala, contei doze poltronas de todo tipo e estilo, tapetes orientais superpostos cobriam o piso, quadros a óleo mostravam homens de barbas e de fartes bigodes, placas douradas presas na moldura, a nobreza dos Ramos? pouco provável, no teto três candelabros imensos de cristal pareciam querer desabar a qualquer momento, replica de David de Da Vinci num canto acrescentado nela um falo de proporções anormais, plantas enchiam os poucos espaços vazios, quase uma floresta, folhas surgiam de talos que lembravam dedos de cadáveres, o fedor vindo delas enjoava como vomito de mulheres grávidas, fotos em preto e branco cobriam uma parede de cima até em baixo, fotos do Terceiro Reich, Hitler em destaque. – sinta – se à vontade, – escutei. Uma mulher sem idade definida me aguardava, olhos sem nenhuma emoção ou expressão, sem alma, o tipo de olhos que podiam assistir sem piscar à empalação de alguém e ouvir os gritos enquanto o sol causticante queimava sua pele, o rosto dela parecia um rosto em que todas experiências da cirurgia plásticas foram ali praticadas, na cabeça uma peruca maltratada, vestia um longo que parecia ter sido retirado do deposito de roupas do Fantasma da Opera, luvas cobriam seus braços até os cotovelos, olhei de novo pro rosto da mulher, tive a impressão de o ter visto em algum lugar. – o quê o trás aqui a essa – é senhora Ramos? – perguntei por perguntar. Segurei sua mão direita e aflorei meus lábios sobre a luva, ela não me impediu, parecia mesmo muito satisfeita. – sim meu jovem, mas me responda, o quê o trás aqui? – pretendia conversar com o doutor Paulo e dar – lhe os pêsames pelo trágico falecimento de Aristides, - respondi. – obrigada, mas está impossibilitado de o receber. – mas eu também pretendia tratar de outros assuntos. – pode falar comigo. Não me convidou para sentar, ficamos um em frente ao outro, parecíamos dois pugilistas antes da contenda. A olhei de novo com todo o cuidado, meu Deus! gritei para mim mesmo, Mônica, é a mãe de Mônica. Refiz - me e falei: – é a mãe de Mônica, não é? Carolina Alves? Ela riu com exagero, riso forçado, parecia uma galinha cacarejando e soluçando.ao mesmo tempo. - é muito perspicaz meu jovem! O raciocínio lógico me levou a outra pergunta. – e doutor Ramos é o pai dela? Moacir Alves? – muitos bem, parabéns! Ela parecia se divertir. – pode me dizer seu nome atual? – perguntei. – Ana! apenas Ana. – e eu Alfredo Monteverde. – não seria Grunberg? – lógico, meus antepassados são judeus e eu meio, mas foi bom dona Ana tocar no assunto, vejo que é adepta do nazismo. Ela olhou para a parede com as fotos com os olhos brilhando, será que cantaria Deutchland Über Alles? – mas vamos deixar esse assunto para mais tarde –, falei tranqüilo, – me permite fazer mais perguntas? Ela moveu a cabeça, um sim mudo. – e Aristides, como ele se situava na família. Ela hesitou um pouco. – simpatizo com você, é direto e corajoso, me faz revelar segredos de família, Aristides era o filho bastardo de Paulo, uma indiscrição masculina, mas eu o recolhi como se fosse meu filho. – e a mãe dele é? - desaparecida, sumida. Eu precisava saber logo, eu estava impaciente e com um tom um pouco acima do normal perguntei: – por que abandonou a Mônica? Ana não hesitou, parecia que esperava ansiosa para responder. – nasceu podre, contaminada com todos os defeitos da sua raça senhor Grunberg, se masturbava sem cessar, a surpreendi com uma cenoura colocada na vagina, quando adolescente engravidou... – ...do Aristides meio irmão dela, ela sabia? – sim, a expulsei de casa, foi fazer a vida na calçada. – e Aristides a explorou, a vendeu pro Nogueira, e depois da morte deste continuou explorando ela. – é uma prostituta, é a vocação dela. – foi por isso que sumiu do Miguel Couto? foi Moacir que a levou? – sim, nenhum mistério nisso. – e os dois assumiram nova identidade comprando certidões de nascimento de pessoas falecidas? – sim, evidente. – e onde foi isso? – meu jovem, é muito xereta. – sim, mas isso não é importante, posso continuar? – sim, por favor. – e André é o filho dela? da Mônica? – é meu neto, eu o criei! – e por que é novo nazista? – por que o criei para ser homem, fui eu quem o levou para conhecer sua primeira mulher aos catorze anos, o obriguei a estudar, ser bom nos esportes, não fugir das brigas, se chegasse em casa com ar de derrotado o mandava de volta para ganhar. A mulher parecia possessa, revirava os olhos, emitia pequenos grunhidos, babava pelos cantos da boca, precisava enlouquecer ela ainda mais. – o tornou um merda de um nazista, o doutrinou, ele me encarcerou, escapei, podia o ter matado, não quis, mesmo um safado como ele merece uma segunda chance, mas você não merece nada, é louca, e me diga sua porca, por que foi que ele me escolheu? – por que se meteu onde não era chamado, como todo judeu destrói tudo ao seu redor, protegeu a puta da Mônica, arrasou o Aristides, amoleceu o Paulo com a sua podridão de intelectual, machucou o André, e agora saia, vou poupá – lo por enquanto. Não me movi, não fiz menção de me levantar, ela chamou o mulatão, ele veio apressado, apontei minha Glock, atirei no pé tamanho 45, alvo fácil, o cara caiu, ainda tentou puxar a arma, atirei de novo dessa vez no peito, o pilantra gritou, gemeu e caiu. Não deu tempo de guardar minha automática, Paulo Ramos surgiu de trás de uma porta escondida por uma das tapeçarias, impecável num terno escuro, camisa branca, gravata de seda, o senador com pose de Presidente, juntou – se à Ana, Paulo Ramos um obediente Príncipe Consorte. – muito bom revê – lo, senhor Monteverde –, falou ele. – é Grunberg! – gritou a mulher. Não me alterei, achei muito cômica a situação, comedia que caminhava para tragédia, o drama impregnado o ambiente, cenário propicio, um cadáver já estendido sobre um tapete persa. – satisfações em vê – lo são e forte, mas me diga doutor Ramos, por que abandonou a Mônica? ela até hoje anseia pelo pai, imaginou até ser ele um herói, inventou um faz de conta muito infantil, ela ainda se sente criança quando pensa nele. Ele retirou um lenço branco do bolso interno do paletó, tirou os óculos do rosto, fingiu limpar as lentes, eu balança minha arma com a mão direita, ele pigarreou, olhou para a mulher como se pedisse licença, se esforçou para abrir a boca, seus dedos se movimentavam como borboletas moribundas. – Ana estava grávida da Mônica, eu com menos quatro meses de casamento encontrei... – ...Moacir Alves, vulgo Paulo Ramos, você mente, molestou sua filha quando adolescente, impregnou nela um sentimento de culpa permanente, virou prostituta por querer se castigar. Aproximei – me dele arrebentei seu supercílio com minha mão fechada. – e você Carolina Alves vulgo Ana Ramos, sabia, era conivente, desconfio que a sua loucura, pois é louca mesmo, provém dos remorsos, mãe de Macbeth que não conseguia se livrar da mancha de sangue, confunde o passado com o presente. Voltei ao meu lugar, a Glock balançando na mão. – e agora, como vamos fazer? chamo a polícia? – não! – gritou a mulher. – então o quê? – vamos pagar! – com o quê? – minhas jóias, valem milhões. – me levem ao cofre, os dois e é pra já! Eles caminharam até uma tapeçaria, a afastaram, me levantei e me aproximei. – abra! – e cutuquei velho. O cofre foi aberto, as jóias eram muitas, arranquei a tapeçaria. – coloque tudo ali, sobre a tapeçaria. O velho obedeceu e eu examinei o que havia no cofre já sem as jóias. – interessante, títulos ao portador, qual é o valor? – milhões. – e vejo também meu cheque. O rasguei. Joguei os papeis sobre as jóias, envolvi tudo com a tapeçaria, e levei a trouxa milionária até onde eu me sentara, fiquei de costas, descuido meu, o velho se jogou em cima de mim, tentou me estrangular, mandei o cotovelo, ele caiu, colocou a mão no lado esquerdo do peito, gemeu e apagou. – morto, enfartado, – falei, – conheço um morto de longe. A velha correu, não me abalei, ela apanhou do chão o revolver do mulatão cadáver, não me emocionei, minha arma apontada na direção dela, ela também apontando, eu com dedo no gatilho me aproximei dela, a derrubei com uma rasteira, tirei a arma da mão dela. – levanta anjinho, você parece com um cão Pekinez, - falei e voltei pro me lugar. André apareceu do nada, uma Luger numa das mãos, olhos embaçados e gelados como águas vindo doa Alpes, os lábios uma linha quase invisível, diminutas rugas no canto dos olhos, rosto sem vida, parecia estar a quilômetros longe da normalidade. Ela virou na direção dele, congelou, estatua de sal, André parou de descer as escadas, sentou no penúltimo degrau, nenhum movimento, a Luger na mão direita, começou com um resmungo ininteligível, aumentou o tom da voz, me fez lembrar daquele cara solitário num bar vazio desabafando suas dores, o barman limpando os copos com aquele sorriso plastificado que as pessoas usam quando tentam fingir não ligar. Eu era o barman. –... estragou minha vida, não tenho amigos, mulheres não querem nada comigo, elas têm medo de ser estupradas, estuprei todas, foi o que ela me ensinou, ódio às mulheres, todas prostitutas, dizia, me afastou de minha mãe, eu queria ser um homem normal, queria ser livre, ser livre, me convenceu que o nazismo me levaria ao infinito, o seu seqüestro, Monteverde, foi arquitetado por ela, ela... –...você é um fraco! – gritou a mulher. Tiros seguidos ecoaram, abafados pelos tapetes e tapeçarias, a mulher caiu ensangüentada. Levantei - me, segurei a Luger pelo cano e a coloquei numa almofada afastada. – André, terá que chamar a polícia. Saí levando a trouxa com jóias e papeis. A sombra de Philip Marlowe de chapéu de feltro e trench coat à minha frente, ele sorria, posso jurar que senti um tapa amigável nas costas e ouvir “well done!”, meu pai surgiu da escuridão, tentou me um dar puxão de orelha, me esquivei, “não pensa que fugirá do castigo, Deus tudo vê e escuta”, falou ele, fui andando na direção do carro, deixei os dois discutindo. 42 A madrugada surgia, as estrelas sumidas, o céu com tons negros no oeste, no leste cor de sangue, eu já vira bastante sangue por uma noite, dirigi apressado, precisava urgente de uma bebida. Sai do túnel, peguei o caminho de Ipanema, na Lagoa barcos a remo seguidos por uma lancha, pega entre um quatro com, um duble e um single skiff, queria parar, me deliciar com a visão do meu passado, o pé pisou no acelerador, leve odor de maresia penetrou nas minhas narinas, não demais, o suficiente para perceber que ainda estava vivo. Dez minutos mais tarde encostei o carro na Jangadeiros, entrei no IRISH PUB, o barman sonolento arrumando garrafas e copos, joguei uma nota de cem em cima dele, peguei uma garrafa de qualquer coisa e bebi pelo gargalo, engasguei, vomitei, deixei o carro onde estava, me apressei para chegar em casa, acendi um cigarro, gosto de chumbo na boca, achei maravilhoso. Entrei cambaleando, esperava encontrar Mônica, merda de mulher, pensei, ela vai e vem, brinca com meus sentimentos, que se foda ela, eu devia estar satisfeito, tudo resolvido, mortes não me incomodavam, o mundo gira 360 grau e volta ao mesmo lugar e a justiça bate o martelo, o que me encucava era o fato de Mônica não se lembrar do passado, talvez fosse melhor assim. Fui até a cozinha, bebi duas xícaras com café dormido, e depois tentei de novo um cigarro, dessa vez o gosto me agradou, uma prova de que ainda pertencia à raça humana. Caí na cama exausto. ...Daniela e Michel sentados um na frente do outro. Ele estende os braço sobre a mesa, Daniela também. Juntam as mãos. – como está seu coração? – pergunta ela. – depois que voltou sarei por completo. – é porque te amo, – fala Daniela com paixão. – eu também te amo, – responde Michel embevecido... Pierre arromba a porta, aponta a arma, atira, sangue aparece na camiseta de Daniela, ela sucumbe, a cabeça cai sobre a mesa suas mãos ainda seguras pelas do Michel. – se não é minha não será de ninguém! Michel chora... 43 Acordei de repente, sem ter sonhado, de repente me dei conta que estava livre dos sonhos. O trinar do telefone me assustou, olhei o relógio, duas da tarde, fui até a sala e atendi. – leu o jornal? – perguntou Mônica. – não, por que? – a tragédia na mansão dos Ramos, três mortos, André foi preso, acham que foi ele. quem... – ...verdade? é bom você arrumar um bom advogado pra ele. Pausa prolongada. – tem seu dedo nisso! – nem pensar, só mato bandidos, nunca gente boa. – o cofre foi encontrado vazio. – e o que tinha lá dentro? – só André sabe. Ela desligou. André preso podia revelar minha presença na mansão, possuía meu nome e endereço, podia também me acusar de incendiar o pardieiro da Correa Dutra, me preocupei muito pouco. 44 Fiquei muito ocupado nos próximos dias. Um antigo cliente meu me fez o favor de desmontar as jóias, ficaram apenas as pedras preciosas, ao papeis portador não podiam ser rastreados. Aluguei um jatinho, rápida viajem até uma cidadezinha no interior do Paraná, o prefeito me devia um grande favor, algo também do meu passado, me arrumou uma certidão de óbito de um tal de Moacir Alves, morto em 2004 de causas desconhecidas, etc. , etc., o tabelião com o apoio do meu amigo prefeito elaborou uma carta testamento registrada em cartório, deixada pelo dito Moacir Alves, nomeando sua filha Mônica Alves como herdeira dos seus bens. Entreguei um cheque de dez mil reais para fazer dele do modo que quiserem e voltei ao Rio. Os trinta milhões depositados no meu banco, dinheiro tirado do Aristides, juntei aos bens deixados por Moacir Alves, um cheque naturalmente. Passaram – se dez dias, Mônica sem dar noticias, não a procurei, ainda era cedo. Acompanhei o desdobramento do caso Ramos pelos jornais e noticiários, André preso, nada revelou por estar catatônico, a policia continuava com as investigações, seis dias mais tarde o caso desapareceu do noticiário. 45 Telefonei pra Mônica, avisei que precisava falar com, que descobrira o quê acontecera com o pai dela. – venha depressa!, falou. Me esperava na porta do apartamento, me abraçou, me beijou, entramos. Não me sentei, nem demorei com as explicações, entreguei a certidão de óbito, a carta testamento, a sacolinha com as pedras, a pasta com os papeis e o cheque. – como conseguiu? Tenho amigos na Policia Federal, – menti, – levaram algum tempo mas foram eficientes, aluguei um jatinho e fui buscar tudo com a prefeitura local. Parece que seu pai surgiu por lá nos meados de 1980, não se sabe de onde, arrumou representação de máquinas agrícolas, ganhou muito dinheiro, não confiava em bancos, transformou tudo em jóias e papeis, o resultado está ali, aos seus pés. Ela sentou no sofá e chorou. Voltei ao meu apartamento. 46 Sentia saudades dela, duas semanas sem noticias, esperei, não saia do apartamento, dormia na poltrona, não ouvia musica, não ligava a TV, olhava hipnotizado para o telefone, vigiava a porta. Philip Marlowe tinha razão, ou melhor, Raymond Chandler, ele escrevera num dos seus romances: ”podemos ter ressaca por ter bebido demais, podemos ter ressaca por causa de muitas outras coisas, mas a pior ressaca é por causa de mulher”. No fim da terceira semana vesti minha sunga e fui à praia, voltei logo, praia não satisfazia mais, enjoara. Acomodei – me na poltrona, acendi um cigarro e continuei esperando. 47 Havia muito silêncio no apartamento, homem vestindo bermudas e camiseta, barba de dois dias e cabelos em desalinho repousava num sofá, não era um repouso confortável, a tensão que o dominava se refletia no rosto sulcado, no olhar quase demente, o corpo teso, rigor mortis, cadáver onde batia um coração e a mente turbilhonava desespero, os intestinos em revolta e o estomago retorcido em dor, suas mãos tremulas deixaram escapar o cigarro sobre os tacos, no chão, não esboçou nenhum movimento, a ponta em brasa apagou-se lenta, ele esperava. A campainha tocou, um trinar metálico, desagradável , ele não se moveu, batidas fortes na porta, levantou-se sem esforço, seu porte atlético desmentia seu estado de prostração de há pouco, seu rosto moreno agora em alegre expectativa, abriu a porta, a mulher entrou: – demorou tanto, quase desisti, está com uma cara... – ...ligeira indisposição. A mulher dirigiu-se apressada até uma poltrona, sentou-se, cruzou as pernas. Não tinha mudado, ainda era bonita, vestia um elegante terninho, cabelos negros puxados para trás, rosto largo, olhos negros. – quer beber algo? Ele não esperou pela resposta, conhecia sua preferência, encaminhou-se ao bar, escolheu uma garrafa, colocou a bebida em dois copos. – não esqueceu! – falou ela. Ele sorriu: – nem de você, faz quanto tempo? – mais de um ano. - e por que demorou tanto? – viajei, França, Espanha, Itália. Ele sabia que ela mentia, ela sempre mentira, mas ele não se incomodou, começou a rir, ela o olhou contrariada, parecia adivinhar o que se passava pela mente dele. – saudade –, falou ele, ligeiro deboche na voz. – continua o mesmo, sarcástico, que saco! Ela se levantou, colocou o copo em cima da mesa de centro, dirigiu-se à porta. – espera! –, gritou ele quase em pânico. Ela parou, a mão na maçaneta: – não tenho tempo a perder, você conhece minha vida. Ele colocou a mão no bolso, escolheu umas notas e as colocou na mesa junto ao copo, sem falar uma palavra ela voltou, apanhou o dinheiro e o escondeu na bolsa. – quer aqui ou no quarto? – perguntou ela ainda de pé. Ele acendeu um cigarro: – me amou algum dia, de verdade? Ela sentou-se de novo na poltrona, cruzou as pernas, o rosto impassível. – sim, te amei muito. Ele nunca soubera explicar sua paixão por ela, não naqueles tempos, vivera um inferno, não escondera suas mágoas na bebida, nem tentara o caminho das drogas, resistira a tudo, nem se perdera no sexo desenfreado, continuara com a sua vida de cidadão de Ipanema. – sabe, nunca senti tanto prazer com uma mulher. Ela o olhou, seu rosto perdera a frieza, sorriu. – precisava de mim, mulher como eu sabe. – e você? fingia? – sim... não, seus humores me assustavam, ora carinhoso, ora um bruto. – então foi apenas sexo? Ela não respondeu, seu rosto serenou, assumiu feição de adolescente, olhar vivaz, sorriso aberto, sincero. – salvou minha vida, me livrou do meu tormento. – e por que continua ser o que era? não precisa, é rica. – porque gosto. Ele não respondeu logo, ela era mais forte que ele, sempre fora, percebeu a inutilidade de continuar – pode ir –, falou calmo. Se ela se surpreendeu nada demonstrou, apanhou o copo da mesa. – não devolvo o dinheiro –, falou com frieza. O homem se levantou, começou a caminhar pela sala, olhar baixo, a mulher o acompanhava com o olhar, parecia perplexa, aos poucos, quase imperceptível, um sorriso apareceu no rosto dele, corpo aprumado e musculoso, o andar tornou-se elegante, fluido. – o que te deu? –, perguntou a mulher. Ele começou a falar, quase didático. – leu o romance As Meninas de Lygia Fagundes Telles? não importa se não leu, ela conta no livro a história de um rapaz que ficava doidão quando via sua namorada tirar seus cílios postiços, ela de biquíni não lhe dizia nada... – ...perde seu tempo mostrando erudição, eu não tenho paciência pra isso, não tenho tempo a perder. – cale essa boca, te paguei, é minha por uma hora, se quer saber por que te chamei, vai ter que esperar. Quando eu era rapaz, as fodas eram rápidas, apressadas, num banco do carro, nem existiam motéis com camas redondas, espelhos nos tetos, filmes pornô, se tirou o cabaço, casou e fim de papo, Lygia pressentira que décadas adiante surgiria a banalização do nu, o sexo fácil, daí a impotência, o enfado, a indiferença... – ...para com essa churumela –, interrompeu a mulher, – que tédio! – ...a procura do impossível –, continuou o homem como se não tivesse ouvido a mulher, – daí Lolita, Anita, a adolescente, a ninfeta, o fruto safado, tão em voga agora, a mulher madura já era, ereção?, difícil, seios nada mais significavam, a posição papai-e-mamãe um porre, novas combinações, posições sexuais, no livro Erotica Universalis de Gilles Neret, está tudo lá, paguei uma nota por ele... – ...se continuar com esse treco vai ter que pagar mais –, interrompeu a mulher de novo. O homem parou a caminhada, retirou um maço de notas do bolso e o jogou em cima dela, recomeçou a andar. – ...os homens ignoram o lado trágico que os espera, mulheres dão sexo para obter amor, os homens dão amor para obter sexo, o tesouro feminino não está mais entre as pernas delas, um outdoor com um lindo par de olhos azuis é mais prazeroso do que um com o corpo sensual de mulher explodindo de prazer. O homem silenciou, observou a mulher recolher as notas, uma por uma. – quando te conheci eu estava quase impotente, um misógino, nenhuma mulher despertava mais meu desejo, pressenti algo diferente em você, não me enganei, voltei a ser o que já fora, se não me amava, por que exigia tanto de mim? A mulher abriu a bolsa, retirou de dentro as notas de dinheiro, as colocou em cima da mesa. – me tratou como mulher, não como objeto, senti prazer, desde o primeiro contato, não queria te perder. – mas... – ...sim, te tratei mal, não podia mudar, baixar aguarda, você ia me fazer sua para sempre? não, não mesmo, portanto... O homem parou na frente dela. – ...acho que sei por que veio. Ela levantou-se, aproximou-se dele, o beijou no rosto, olhou o relógio. – estou atrasada, esqueça o número do meu telefone, me esqueça. O homem não se moveu, nada falou, apenas ficou ali de pé, ela caminhou na direção da porta, colocou a mão na maçaneta, abriu, parou, fecha de novo a porta, voltou, jogou a bolsa no sofá, retirou o casaquinho, deixou cair a saia, ficou de calcinha, o esplendor do seu corpo quase o cegou, ela se aproximou, com movimentos delicados retirou a camiseta dele. – vamos! – falou sorrindo. Ele não se moveu. – não! – um grunhido gutural. Ela deslizou pelo corpo dele, abraçou suas pernas. – me perdoe. Ele a içou. – vamos deixar isso para um outro dia, – falou com emoção contida. Ela se vestiu em silêncio, ele a olhava com ternura, e continuou assim durante muito tempo depois dela sair. Ele colocou o DVD da opera LA TRAVIATA no player e sentou na poltrona, acendeu um cigarro.
Posted by Iosif
Landau at 1:04 da tarde.
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